Empresa japonesa de robótica cria solução futurista de comunicação para amenizar sentimento de solidão

Aki Yuki é cofundadora e diretora de Operações da Ory Lab Inc., empresa japonesa do setor de robótica que desenvolve robôs para serem usados como avatar de pessoas com deficiência física ou mental ou com problemas relacionados à idade, oferecendo a elas uma forma de se comunicar, interagir e participar ativamente de ambientes sociais ou profissionais.

(Foto: Cortesia da Ory Lab Inc.)

Só no Japão, são milhões de pessoas que vivem em situação de isolamento social em razão de deficiência física ou mental ou de idade avançada. Aki Yuki, cofundadora e diretora de Operações da Ory Lab Inc., decidiu buscar uma solução a esse problema. Com esse objetivo, sua empresa vem desenvolvendo uma tecnologia pioneira que oferece novas possibilidades para que esses indivíduos excluídos do convívio com outros possam interagir socialmente.

A inovadora trajetória de Yuki Aki

A criatividade e o espírito de inovação de Yuki Aki nessa área são fruto de sua própria experiência: a jovem contraiu tuberculose e precisou ficar isolada num hospital durante um longo período. Yuki começou a se interessar por ciências ainda muito jovem. No primeiro ano do equivalente ao ensino médio no Japão, a estudante recebeu um prêmio por suas pesquisas em dinâmica de fluidos no JSEC (Concurso de Ciência e Engenharia do Japão), organizado pelo Ministério da Educação, da Cultura, dos Esportes, das Ciências e da Tecnologia, como relata um artigo publicado pelo governo japonês. Com o prêmio, ela pôde se inscrever no concurso do ISEF (Intel International Science and Engineering Fair), mas suas esperanças foram por água abaixo ao descobrir que havia contraído tuberculose. No ano seguinte, porém, mais uma vez vencedora do concurso JSEC, Yuki Aki pôde participar da competição organizada pelo ISEF. Foi lá que conheceu Kentarou (Ory) Yoshifuji, que, como ela, havia vencido um concurso de ciências. Os jovens se tornaram amigos e, mais tarde, fundaram juntos a Ory Laboratory, Inc.

A jovem japonesa Aki Yuki, diretora de Operações
da Ory Lab Inc., desenvolveu uma solução para o
problema de isolamento social, com o uso de
robôs que atuam como o alter ego de pessoas
acamadas ou que tenham algum tipo de deficiência
física ou cognitiva, oferecendo a elas a possibilidade
de ter uma vida social ativa.
(Foto: (C) Yotsuya Otsuka Inc.)

Bem sintonizados, os dois decidiram lançar o projeto de avatar robotizado com outros parceiros que conheceram durante o JSEC. Na época, Yuki tinha ingressado no programa de pesquisa em robótica da Universidade de Waseda, em Tóquio, no Japão. Nesse estabelecimento, ela desenvolveu, junto com Kentarou Yoshifuji, o conceito de OriHime, vencedor do Grande Prêmio Waseda Monozukuri.

Em 2012, Kentarou Yoshifuji (CEO), Yoshifumi Shiiba (CTO) e Aki Yuki criaram a Ory Lab Inc. e continuaram trabalhando no desenvolvimento do robô avatar OriHime.

O primeiro protótipo do OriHime ficou pronto em 2009, mas continuou sendo aperfeiçoado até 2013, quando foi lançado o atual modelo. Em 2016, os três jovens empreendedores começaram a produção em série dos robôs, disponibilizando-os por meio de um sistema de aluguel mensal. O objetivo era torná-los tão acessíveis quanto possível.

Combater o isolamento social graças ao OriHime

Capaz de movimentar o pescoço e os braços, o robô OriHime tem a forma de uma boneca com tronco e membros superiores. Pesando 660 g e com 23 cm de altura e 17 cm de largura, o robô foi criado para ajudar pessoas impossibilitadas de se deslocar, em decorrência de hospitalização, deficiência física ou outros motivos.

Equipado com câmera interna, microfone e alto-falante, o OriHime é operado remotamente pela Internet. Uma vez levado para o local em que o usuário deseja estar – por exemplo a escola, o escritório ou a residência de membros da família –, o robô “vê” o ambiente à sua volta e interage com as pessoas presentes, dando ao usuário a impressão de estar no local pessoalmente. Dessa maneira, o usuário continua a participar da vida social, superando eventuais limitações decorrentes da idade ou de uma possível deficiência, ou qualquer outro problema que o impeça se deslocar para outros ambientes. Comandado por meio de um computador ou um smartphone, o OriHime é capaz de movimentar a cabeça, dizendo “sim” ou “não”, e de expressar sentimentos – como alegria ou ansiedade – com os movimentos dos braços.

O nome OriHime é uma alusão à lenda japonesa da deusa das estrelas OriHime, cuja narrativa romântica conta a história de dois amantes que, originários de universos diferentes, foram separados à força. “Nosso mais profundo desejo é que o OriHime ajude as pessoas a se sentirem bem, criando um ambiente social que impeça o sentimento de solidão tão presente no mundo atual”, descreve o site da empresa.

Fundada em 2012, a startup japonesa Ory Lab Inc.
tem como objetivo erradicar o problema do
isolamento social graças à tecnologia.
(Foto: Cortesia da Ory Lab Inc.)

O OriHime cria e amplia o círculo social dos usuários. Um bom exemplo são as crianças hospitalizadas por longos períodos ou que sofram de alguma deficiência física que dificulte a locomoção: graças ao OriHime, elas podem interagir com os colegas da escola. Da mesma forma, os idosos podem conversar com parentes que morem longe. No caso de profissionais que precisem cuidar dos filhos, o robô é uma excelente forma de trabalhar em casa e, ao mesmo tempo, estar presente no escritório.

Para pacientes com deficiências graves e grande limitação de movimentos, a empresa criou o OriHime Eye, dispositivo de rastreamento ocular que oferece um canal de comunicação para pessoas que sofram de ELA (esclerose lateral amiotrófica), por exemplo. Graças a esse sistema, os pacientes podem “escrever” os caracteres numa tela e “ler” textos em voz alta, interagindo com o mundo exterior pela internet, usando um avatar OriHime como intermediário.

A Ory Lab Inc. desenvolveu também o OriHime-D, robô avatar especificamente voltado para pessoas que trabalham em casa. Esse modelo tem 120 cm de altura e é equipado com 14 motores de junta na parte superior do corpo, o que o torna capaz de realizar uma série de tarefas físicas, como carregar um objeto de um lugar para outro ou servir bebidas como num restaurante.

“Atualmente, fornecemos o OriHime para grandes companhias que utilizam amplamente o trabalho em home office, bem como para hospitais e pessoas físicas. Os funcionários das empresas nos dizem que, quando observam e ouvem o que está acontecendo no escritório, têm a impressão de estar lá, trabalhando com os colegas. E as pessoas que estão em contato com o OriHime no escritório dizem que a personalidade do funcionário ausente se manifesta nos movimentos do pescoço e dos braços do robô, bem como pela voz. A tecnologia OriHime é capaz de veicular a presença de uma pessoa, inclusive seus sentimentos e sua forma de pensar”, explica Yuki.

A tecnologia OriHime é capaz de veicular a presença de uma pessoa, inclusive seus sentimentos e sua forma de pensar.

Aki Yuki

A premiada experiência social da Ory Lab

Para demonstrar os benefícios sociais da tecnologia desenvolvida por eles, os fundadores da Ory Lab Inc. abriram um café que funciona com “trabalho remoto”. Conhecido como DAWN (Diverse Avatar Working Network – Rede de Trabalho Diversificada de Avatar), o estabelecimento fica situado no distrito de Nihonbashi, na capital japonesa. O novo empreendimento, idealizado como uma experiência social, cria um ambiente no qual até mesmo pacientes com deficiências físicas graves têm a possibilidade de assumir funções importantes e interagir com outras pessoas. Os robôs OriHime-D que “trabalham” no café são operados remotamente por funcionários com diferentes graus de deficiência, inclusive pacientes com ELA ou atrofia muscular espinhal (AME). Atuando a distância como garçons e garçonetes, eles controlam um avatar OriHime-D por meio de movimentos oculares, recebendo uma remuneração por hora. Dessa forma, têm uma atuação socialmente positiva e participam da vida econômica.

“Quando controlo o OriHime de casa, sinto como se eu realmente estivesse no café. É verdade que enfrento muitas dificuldades no dia a dia, mas acredito que minha vida tem um propósito e que não está sendo desperdiçada. O fato de saber que sou útil, de ser capaz de ajudar outras pessoas e até de sentir que precisam de mim é uma grande motivação,” afirma Shota Kuwahara, que sofre de distrofia muscular e trabalha no café graças a seu robô OriHime.

Por seu valor social, o projeto conquistou o Good Design Award 2021, patrocinado pelo Instituto Japonês de Promoção do Design.


Vídeo: Conheça o Dawn Avatar Robot Café, criado pela empresa japonesa Ory Lab para oferecer um ambiente de trabalho a pessoas com deficiências físicas graves.

Yuki Aki detém várias patentes por seu trabalho pioneiro.

Yuki Aki entrou para a Galeria de Jovens do Dia Mundial da Propriedade Intelectual.