Com o Hydraloop, o estresse hídrico se combate em casa

Setembro de 2022

Catherine Jewell, Divisão de Informações e Comunicação Digital, OMPI

O sistema descentralizado de reciclagem de águas cinzas Hydraloop possibilita uma redução de até 45% tanto no consumo de água como na emissão de águas residuais por domicílios. Em um momento em que as temperaturas cada vez mais elevadas provocam tragédias em todo o planeta, prolongando os períodos de seca e agravando o estresse hídrico, essa premiada solução de tratamento de água não poderia chegar em melhor hora.

(Da esquerda para a direita: Arthur Valkieser, Sabine Stuiver, Daren Tang, diretor geral da OMPI, e Tatiana Molcean, embaixadora da Moldávia no Escritório das Nações Unidas em Genebra e presidente da Assembleia Geral da OMPI) Em julho de 2022, a Hydraloop, empresa fundada por Arthur Valkieser e Sabine Stuiver, ficou entre as cinco vencedoras da edição inaugural dos Prêmios Mundiais da OMPI, cujo objetivo é celebrar as conquistas das pequenas e médias empresas que usam a propriedade intelectual para gerar impactos positivos dentro e fora de seus países. (Foto: OMPI/Berrod)

Arthur Valkieser e Sabine Stuiver, casal de holandeses por trás do Hydraloop, tomaram para si a missão de encontrar uma solução para a grave crise hídrica do planeta, que vem se aprofundando cada vez mais. Em 2015, os dois bem-sucedidos empreendedores abandonaram a aposentadoria para desenvolver um sistema domiciliar de tratamento de água que fosse descentralizado e respondesse às aspirações dos consumidores. A empresa Hydraloop, que o casal constituiu para desenvolver o sistema de mesmo nome, ficou entre as cinco vencedoras da primeira edição dos Prêmios Mundiais da OMPI para PMEs, cujo anúncio aconteceu em julho deste ano. Valkieser e Stuiver acreditam que o prêmio da OMPI constitui um estímulo importante para o seu esforço de disseminar mundialmente essa engenhosa solução de tratamento de água.

O que os levou a investir em reciclagem de água e criar a Hydraloop?

Stuiver: Os recursos de água doce de nosso planeta são finitos. As mudanças climáticas estão causando estiagens severas e o estresse hídrico é um desafio para inúmeros países, inclusive no continente europeu. Estimativas indicam que até 2030, cerca de 700 milhões de pessoas em todo o mundo podem ser deslocadas devido à escassez de água. Apesar dessa realidade alarmante, continuamos a usar água doce para alimentar nossos vasos sanitários, lavar roupas e regar nossos jardins. Não faz o menor sentido. Por isso, quando o Arthur teve a ideia de criar um sistema descentralizado de reciclagem de águas cinzas, sentimos que era nossa obrigação colocá-la em prática. Abandonamos nossa aposentadoria no sul da França e voltamos para a Holanda para desenvolver a tecnologia e a empresa.

Valkieser: Até 2050, haverá dois bilhões de pessoas a mais no mundo e nossas necessidades de água serão 55% maiores do que hoje, de modo que eu não podia simplesmente ignorar essa ideia que tive. Precisava fazer alguma coisa com ela. A crise hídrica atual é um alerta para aqueles que ignoraram todas as evidências de que haveria uma escassez crescente de água. A boa notícia, porém, é que podemos contribuir para solucionar o problema, reciclando e reaproveitando a água que usamos em casa.

Até 2050, haverá dois bilhões de pessoas a mais no mundo e nossas necessidades de água serão 55% maiores do que hoje.

Arthur Valkieser, inventor, CEO e cofundador da Hydraloop

Você tem alguma formação em engenharia hidráulica?

Valkieser: Nenhuma! Na verdade, eu comandava uma grande empresa de comunicações na Holanda. Mas isso acabou representando uma vantagem para mim, pois não parti de ideias preconcebidas. Não tive o raciocínio cerceado pelos ditames de uma educação formal. Eu sabia o que estava buscando e me orientei essencialmente pelo método da tentativa e erro. Enfrentei muitos desafios, mas aprendi que cada problema é, na realidade, uma dádiva, porque ao solucioná-lo, você aprimora o que está fazendo.

As unidades do Hydraloop são belas e elegantes. Por que essa preocupação com o design?

Stuiver: Como o nosso foco é o enorme número de pessoas que deseja contribuir para um planeta mais sustentável, percebemos que a nossa solução precisava ter preocupação com o consumidor, sem que isso comprometesse os requisitos de conforto e higiene. Sabíamos que o nosso produto devia ser compacto, duradouro e também bonito, porque design é tudo.

Valkieser: O reconhecimento que temos obtido se deve realmente ao nosso design, mas também ao fato de que o nosso sistema trata as águas cinzas (provenientes de chuveiros, máquinas de lavar roupa, aparelhos de ar-condicionado, etc.) sem fazer uso de filtros, membranas ou substâncias químicas. Nossa tecnologia patenteada trata e purifica águas residuais de acordo com os padrões internacionais mais exigentes, mas sem a utilização de filtros, que estão sujeitos a entupimentos e demandam manutenção constante e dispendiosa.

(Foto: cortesia da Hydraloop)

Quais são os benefícios ambientais do Hydraloop?

Valkieser: O Hydraloop gera economia de água e energia elétrica, além de permitir que os usuários reduzam sua pegada de carbono. Com o Hydraloop, é possível reduzir em 45% tanto o consumo de água como as emissões de águas residuais. A consequente diminuição no volume de água a ser transportado para a residência dos usuários, bem como no volume a ser processado pelas estações de tratamento de esgoto, resulta na redução da pegada de carbono dos usuários.

Stuiver: Na Hydraloop, nós dizemos que quem tem juízo faz reuso da água. Com nosso sistema “instale e esqueça”, os usuários podem fazer isso com facilidade e comodidade, sem comprometer a higiene ou a qualidade de vida.

E como funciona o sistema?

Valkieser: O Hydraloop utiliza um sistema patenteado de tratamento de água que combina seis diferentes tecnologias: sedimentação, flotação, flotação por ar dissolvido, fracionamento de espuma, um biorreator aeróbio e desinfecção da água tratada com poderosos raios ultravioleta para produzir uma água compatível com os mais exigentes padrões internacionais. Cada unidade de Hydraloop – atualmente temos dois modelos, um que atende até cinco pessoas e outro com capacidade para até doze pessoas – é monitorada ininterruptamente pela internet, por meio de um servidor remoto. Os usuários também podem acompanhar seu uso de água por meio de nosso aplicativo para smartphones, que oferece dicas úteis para economizar água. Comecei a trabalhar no Hydraloop em meados de 2015 e o sistema foi lançado no mercado no fim de 2017, de modo que seu desenvolvimento se estendeu por pouco mais de dois anos.

Quais foram os pontos altos dessa jornada empreendedora?

Stuiver: Entramos no mercado em novembro de 2017, na Aquatech Amsterdam. Os visitantes da feira faziam fila em nosso estande para conversar conosco. Sabíamos que tínhamos um produto especial, mas as unidades ainda estavam sendo fabricadas em nossa própria garagem. Em 2018 e 2019, levamos o Hydraloop a 26 exposições, percorrendo Europa, Oriente Médio, África do Sul e Estados Unidos. Era como se fôssemos missionários, procurando conscientizar as pessoas da importância da reciclagem descentralizada de água. Nossa 27ª exposição foi a Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas, e lá nós conquistamos quatro prêmios: a) Melhor inovação: sustentabilidade, design ecológico e energia inteligente; b) Melhor produto sustentável; c) Melhor startup; e d) Melhor entre os melhores, superando 20 mil outros produtos exibidos na feira. Isso nos tornou famosos e nos proporcionou uma visibilidade imensa.

A crise hídrica atual é um alerta para aqueles que ignoraram todas as evidências de que haveria uma escassez crescente de água. A boa notícia, porém, é que nós também podemos contribuir para solucionar o problema, reciclando e reaproveitando a água que usamos em casa.

Arthur Valkieser, inventor, CEO e cofundador da Hydraloop

E os pontos baixos?

Stuiver: Depois da CES, era fundamental expandir a empresa, em termos de pessoal, produção e investimentos. Até aquele momento, estávamos financiando a Hydraloop com recursos próprios. Com nosso desempenho na CES, formou-se uma fila de investidores à nossa porta, mas aí veio a pandemia de Covid-19 e eles desapareceram. Foi um período de muita incerteza e angústia, mas em nossa pequena equipe de gestores e acionistas ninguém pensava em desistir. Pouco depois, encontramos investidores e as coisas voltaram a acontecer. No ano que vem, faremos uma nova rodada de captação. Estamos otimistas, pois construímos uma marca sólida, que já é conhecida de muita gente. Nosso foco estratégico agora é a internacionalização.

Como vocês pretendem se internacionalizar?

Valkieser: Temos a convicção de que a instalação de sistemas descentralizados de tratamento de água se tornará um padrão nos códigos de edificação, como as bombas de calor e os aparelhos de ar-condicionado hoje em dia. É um mercado de proporções extraordinárias e o caminho para a internacionalização passa necessariamente pelo estabelecimento de parcerias.

Stuiver: Já temos 140 parceiros, em 50 países, que comercializam unidades do sistema Hydraloop. São empresas de engenharia hidráulica, hotéis, arquitetos, fornecedores de equipamentos de jardinagem e companhias de saneamento que desejam incluir em seus portfólios produtos sustentáveis como o Hydraloop. Também estamos conversando com vários fabricantes de eletrodomésticos da linha branca. Nesse caso, há algumas alternativas em estudo, de marketing compartilhado e associação de marcas a contratos de licenciamento, sobretudo em países onde não atuamos. Dessa forma, nossa tecnologia pode ser produzida localmente, com redução de custos. Mas precisamos de investimentos. Sem investimentos, não conseguiremos atingir esses objetivos globais.

Nossa missão é levar o Hydraloop a muitos novos edifícios e casas em todo o mundo nas próximas décadas.

Sabine Stuiver, diretora de marketing e cofundadora da Hydraloop

O mundo está pronto para os sistemas domésticos de tratamento de água, como o da Hydraloop?

Valkieser: A Hydraloop está desbravando esse mercado. O mercado está aí, mas há certas normas que precisam ser ajustadas. Quando você faz algo novo, os ajustes são inevitáveis. É por essa razão que, além de comandar a empresa, também atuo como especialista na Comissão Europeia de Padronização do Uso das Águas, onde fui um dos responsáveis pela elaboração dos padrões relativos ao uso de águas pluviais e águas recicladas em aplicações não potáveis. Cada país tem leis e regulamentos próprios, que faziam sentido no passado, quando foram adotados, mas que em muitos casos perderam a relevância e acabam impedindo que as inovações cheguem ao mercado. Daí a importância de revogar as normas ultrapassadas e estabelecer novos padrões para a gestão de águas residuais. Também sou membro do conselho de administração da Water Europe, que promove inovações relativas ao uso da água na Europa. Acho que é uma forma importante de encontrar soluções para questões relacionadas à água na Europa. Relatórios elaborados há dez anos já previam a situação que vivenciamos hoje, mas ninguém faz nada só com base em um relatório. Infelizmente, as pessoas precisam sentir o problema na pele para começar a agir. Precisamos agora de políticos judiciosos, que estejam dispostos a adotar as medidas necessárias. E precisamos de investimentos para implementar as soluções, pois elas não serão gratuitas.

Stuiver: Faço parte do comitê consultivo para políticas públicas da Water Europe, que promove a conscientização sobre o valor da água para nossa sociedade e economia. O comitê também trabalha pela inclusão de soluções e abordagens inovadoras nas diretrizes legais e políticas públicas europeias. Há muitas inovações no setor e já dispomos de soluções viáveis, tanto em termos técnicos como econômicos, para solucionar a crise hídrica. Essa é uma ótima notícia, mas em muitas regiões a água ainda é extremamente barata. Por isso defendemos três coisas: primeiro, que dispositivos voltados para a economia de água passem a ser incluídos nos códigos de edificação do mundo inteiro; segundo, que construtoras e usuários finais sejam ativamente incentivados a adotar esses dispositivos; e terceiro, que sejam implementados esquemas de preços diferenciados, para que as pessoas paguem taxas mais elevadas se o seu consumo de água for maior que o normal. Isso ajudará a conscientizar os consumidores sobre o verdadeiro valor da água e garantirá o uso responsável desse recurso tão fundamental.

Qual o papel da propriedade intelectual na empresa de vocês?

Stuiver: A propriedade intelectual ajudou a Hydraloop em todas as áreas, financiando a nossa missão e viabilizando a expansão exponencial de nossa produção e de nossas vendas, contribuindo, assim, para que nos tornássemos líderes de mercado em nosso segmento. Nossa missão é levar o sistema Hydraloop a muitos novos edifícios e casas em todo o mundo nas próximas décadas. Isso significa que precisamos recorrer a mecanismos de colaboração e proteção. É a PI que torna isso possível.

Valkieser: Desde o princípio, estávamos cientes de que a PI seria importante para nós. Não pretendíamos investir tanto tempo e energia no desenvolvimento da nossa ideia e correr o risco de que alguém a copiasse.

Stuiver: Desenvolvemos um produto patenteado que qualquer pessoa pode usar em troca do pagamento de uma taxa. E os nossos direitos de PI viabilizam a expansão de nossa produção, de nossas atividades publicitárias e de nossas vendas. Por meio de contratos de licenciamento, podemos estabelecer parcerias com outras empresas e disponibilizar rapidamente esse produto tão necessário no mundo inteiro. A propriedade intelectual também tornou nossa empresa muito mais interessante para os investidores. Além de nossa equipe, é a PI que protege e confere valor para a empresa.

O sistema descentralizado de reciclagem de águas cinzas Hydraloop possibilita uma redução de até 45% tanto no consumo de água como na emissão de águas residuais por domicílios. (Foto: cortesia da Hydraloop)

Por que foi importante para a Hydraloop obter uma certificação independente?

Valkieser: Em primeiro lugar, a certificação viabilizou nossa entrada no mercado. E, em segundo, entender as exigências dos órgãos de certificação me ajudou a projetar o Hydraloop. Meu objetivo era cumprir os requisitos mais exigentes, isto é, os do NSF/ANSI-350, nos Estados Unidos. Embora não digam como fazer o tratamento de água, essas certificações explicam o que o seu produto precisa realizar. Foram elas que me forneceram as orientações de que eu precisava para chegar ao sistema atualmente patenteado.

Como é a visão de vocês do futuro?

Stuiver: Estamos diante de uma crise hídrica mundial e, sem água, nossa sobrevivência é inviável. Água é vida. Muitas pessoas ainda não se deram conta de que a água é essencial para o bem-estar social, para o desenvolvimento econômico, para o crescimento empresarial e para a saúde dos ecossistemas naturais. A boa notícia é que estamos em condições de solucionar essa crise. As soluções já existem. Só precisamos implementá-las!

Valkieser: Nossa visão é que em dez anos haverá sistemas descentralizados de reciclagem de água instalados em todos os edifícios, pois esse será o padrão exigido nos códigos de edificação do mundo inteiro. E queremos contribuir efetivamente para o enfrentamento da crise hídrica mundial, tornando-nos líderes de mercado nesse segmento.

Aprendi que cada problema é, na realidade, uma dádiva, porque ao solucioná-lo, você aprimora o que está fazendo.

Arthur Valkieser, inventor, CEO e cofundador da Hydraloop

O que significou vencer o Prêmio Mundial da OMPI para PMEs?

Stuiver: Foi uma conquista extremamente importante. Em primeiro lugar, fiquei muito orgulhosa porque o prêmio representa um reconhecimento para a invenção do Arthur e para todo o trabalho que ele realizou em seu desenvolvimento. Tivemos uma jornada emocionante até aqui. E, em segundo lugar, o prêmio nos dá muito mais visibilidade e credibilidade para levar nossa missão adiante, pois o que nós fazemos tem uma importância extraordinária. Não estamos aqui para vender um produto. Queremos transformar o mundo.

Qual o seu conselho para outras PMEs que estejam iniciando suas jornadas empresariais?

Valkieser: Não desistam nunca.

A Revista da OMPI destina-se a contribuir para o aumento da compreensão do público da propriedade intelectual e do trabalho da OMPI; não é um documento oficial da OMPI. As designações utilizadas e a apresentação de material em toda esta publicação não implicam a expressão de qualquer opinião da parte da OMPI sobre o estatuto jurídico de qualquer país, território, ou área ou as suas autoridades, ou sobre a delimitação das suas fronteiras ou limites. Esta publicação não tem a intenção de refletir as opiniões dos Estados Membros ou da Secretaria da OMPI. A menção de companhias específicas ou de produtos de fabricantes não implica que sejam aprovados ou recomendados pela OMPI de preferência a outros de semelhante natureza que não são mencionados.