PI e juventude: educando os futuros inovadores

Junho de 2022

Cecilia Thirlway, pesquisadora, escritora e professora do Centro de Inovação e Empreendedorismo, Universidade de Bristol, Reino Unido

Os jovens se veem hoje diante de um mundo complexo e repleto de incertezas. Não só a pandemia continua a mudar o modo como trabalhamos e vivemos, mas também a ameaça cada vez mais concreta das mudanças climáticas faz da necessidade de pensar sobre o futuro um exercício árduo e angustiante. Em muitas partes do mundo, os jovens também enfrentam pobreza, desemprego, conflitos bélicos ou guerras civis e turbulências políticas.

A juventude impulsiona as mudanças

Diante desses desafios, alguns jovens já vêm se mobilizando e realizando ações de enorme visibilidade: quem nunca ouviu falar na ativista climática Greta Thunberg e suas “greves estudantis pelo clima”? Outros adolescentes levam governos e empresas à Justiça por descumprirem os compromissos assumidos em relação às emissões de carbono e outras ações de combate às mudanças climáticas.

Vídeo: O adolescente holandês Boyan Slate apresentou no TEDxDelft de 2012 o conceito de limpeza passiva que o levou à criação da tecnologia por trás da organização Ocean Cleanup.

Quando tinha 16 anos, o holandês Boyan Slat teve algumas ideias inovadoras para retirar os resíduos plásticos que poluem os oceanos. Quando sua apresentação no TEDx de 2012 viralizou, ele abandonou a escola para criar a tecnologia que está por trás da organização Ocean Cleanup.

Essas histórias são incríveis, mas nem todo adolescente pode (ou deveria ser obrigado a) abandonar a escola, fazer greve ou entrar na Justiça para atingir seus objetivos. Tampouco os princípios que norteiam essas ações são exclusividade de uns poucos jovens. Projeto realizado recentemente pela iniciativa Global Shapers Community, do Fórum Econômico Mundial, contou com a participação, em variados graus de envolvimento, de mais de 2,3 milhões de jovens, resultando na elaboração do relatório Plano de Recuperação Voltado para a Juventude pdf, em que são estabelecidos compromissos com consumo consciente, proteção ambiental, tecnologia e inovação éticas e ações contra as mudanças climáticas.

Em iniciativa semelhante, o British Council publicou em setembro de 2021 os resultados da sua Carta da Juventude Global sobre Ações Climáticas – um levantamento que entrevistou 8 mil jovens de 23 países. A pesquisa revela que 67% dos jovens pensam que seus líderes não têm condições de enfrentar as mudanças climáticas sozinhos. Mas como promover a participação de um número ainda maior de jovens? Como fazer para que eles se mobilizem e tenham condições de inventar, criar e inovar, desenvolvendo soluções para alguns dos problemas mais graves com que nos defrontamos atualmente?

O problema do desmatamento é uma prioridade para a escola Alpha Core, tendo levado seus alunos a desenvolver um projeto de reciclagem para reduzir o uso de papel virgem e criar artigos de papelaria comercializáveis. Desse modo, foram desenvolvidas diversas habilidades empreendedoras e, com sua criatividade, as crianças rapidamente ampliaram seu portfólio de produtos. (Foto: cortesia da escola Alpha Core, Paquistão)

Capacitando os jovens para que se tornem agentes do desenvolvimento sustentável

Como disse o presidente da COP26 Alok Sharma, em uma mensagem de vídeo transmitida aos participantes da conferência reunidos em Glasgow, entre outubro e novembro de 2021: “A principal mensagem da Carta Global da Juventude, do British Council, é que os jovens estão motivados e querem aprender a combater o aquecimento global, querem se envolver nas ações climáticas. Mas também ouvi [jovens] reivindicando uma participação realmente efetiva e exigindo educação e treinamento de melhor qualidade”.

Os jovens querem uma educação que reflita a natureza da tarefa que se apresenta à sua frente, e nisso contam com um apoio de peso. Divulgada em maio de 2021 pela Conferência Mundial da UNESCO sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável (EDS), a Declaração de Berlim define a EDS como uma educação que “garante os conhecimentos, habilidades, valores e atitudes necessários para que todos possam se tornar agentes da mudança em favor do desenvolvimento sustentável (...), desenvolvendo suas habilidades cognitivas e não cognitivas, como o raciocínio crítico e as competências de colaboração, resolução de problemas e enfrentamento de complexidade e risco, fortalecendo sua determinação e sua capacidade de reflexão sistêmica e criativa, e capacitando-os para que possam agir responsavelmente como cidadãos (...)”.

Com a oportunidade de desenvolver habilidades como criatividade, colaboração, determinação, inventividade e iniciativa, os jovens estarão muito mais bem capacitados para enfrentar o futuro incerto e desafiador que se apresenta à sua frente.

Educação empreendedora

Determinação, criatividade, iniciativa e capacidade de resolução de problemas são habilidades pessoais que estão no cerne da educação empreendedora. Ao explicar a diferença entre esse tipo de educação e a formação proporcionada pelos cursos tradicionais de administração de empresas, o já falecido professor Alan Gibb certa vez disse que o objetivo da educação empreendedora é “preparar os jovens para uma vida de maior incerteza e complexidade no mundo do trabalho, do consumo e da convivência social, estimulando-os a identificar e aproveitar oportunidades com base em sua iniciativa individual”.

É uma visão compartilhada por Don Parker, diretor educacional do Centro de Inovação e Empreendedorismo da Universidade de Bristol, que afirma:

“Se há algo de que estamos convictos em relação à nossa missão aqui no Centro é que precisamos capacitar nossos alunos para que se tonem agentes de mudanças.” E acrescenta: “Mudar é difícil para todo mundo – nossos alunos nos trazem os problemas que encontram a seu redor e nós os ajudamos a transformá-los em um sistema de valores, em um novo diálogo com a iniciativa privada e a sociedade. Eles transbordam de vigor e entusiasmo, mas essa energia toda precisa ser direcionada para se tornar efetiva”.

Mudança de mentalidade entre os jovens

Com mais de 20 anos dedicados ao ensino, Parker observa uma mudança drástica na mentalidade de seus alunos:

“Há algum tempo, a sustentabilidade era algo que despertava o interesse deles. Depois se tornou um desejo. Agora é a prioridade número um. Eles entram na sala e já vão falando em sustentabilidade. E é uma preocupação realmente genuína.”

Os programas do Centro de Inovação e Empreendedorismo combinam habilidades empresariais com os processos criativos usados na inovação. O mestrado integrado com graduação, por exemplo, possibilita que o aluno mescle uma disciplina básica mais tradicional, como antropologia, ciência da computação ou física (entre outras), com módulos focados em criatividade, pensamento sistêmico e crítico, resolução de problemas e criação de novos empreendimentos. Como parte da abordagem educacional, os alunos devem trabalhar colaborativamente em equipes interdisciplinares para solucionar problemas do mundo real.

O Centro de Inovação e Empreendedorismo da Universidade de Bristol combina habilidades empresariais com os processos criativos usados na inovação. As recém-formadas Amber Probyn e Hazel McShane (abaixo) transformaram seu trabalho de conclusão de curso – um conceito de projeto sustentável de mictórios femininos para festivais de música – em uma bem-sucedida startup chamada Peequal, para a qual as duas empreendedoras recentemente conseguiram captar financiamento. (Foto: cortesia da Peequal)

Duas recém-formadas do Centro, Amber Probyn e Hazel McShane, transformaram seu trabalho de conclusão de curso – um conceito de projeto de mictórios femininos que pretende reduzir o tempo de fila e oferecer um ambiente mais seguro em festivais de música e outros eventos temporários – em uma bem-sucedida startup. Quando as entrevistei para este artigo, elas haviam recentemente depositado pedidos de patente, marca e marca nominativa para sua empresa – a Peequal (nome que contém um jogo de palavras com os vocábulos ingleses “xixi” e “igualdade”) – e estavam prestes a concluir uma rodada de investimentos em que foram captadas mais de 250 mil libras. 

A sustentabilidade é a alma do negócio das duas empreendedoras.

“Nossos valores envolvem segurança para as mulheres, igualdade de gênero e sustentabilidade (...). Nós duas adoramos ir a festivais de música, mas temos consciência de seu impacto ambiental. Foi pensando em atenuar o problema que criamos o Peequal. O sanitário é totalmente desmontável, o que gera economia em combustível e outros custos de transporte, e embora seja feito de plástico, usamos apenas plástico reciclado retirado do oceano, como velhas redes de pesca. Tivemos que tomar algumas decisões dispendiosas para atingir nossas metas de sustentabilidade, mas achamos que valeu a pena.”

Para Probyn, a possibilidade de começar seu próprio negócio foi um dos fatores que pesaram em sua decisão de estudar no Centro, mas a história de McShane é diferente.

(Foto: cortesia da Peequal)

“Eu não tinha a menor ideia do que queria fazer. Abrir um negócio nunca esteve nos meus planos, então o mérito é todo do Centro de Inovação, que foi pouco a pouco me apresentando conceitos como processo e pensamento criativos, captação de investimentos e propriedade intelectual (PI).”

As habilidades aprendidas no Centro ainda estão frescas na cabeça das duas, como pude observar quando elas me contaram como tinham feito para produzir recentemente um protótipo de papelão do Peequal, para testar um novo desenho para o mictório. Em vez de comprar chapas novas de papelão, as duas foram atrás de sua matéria-prima na lixeira do supermercado local.

“Foi cômico, morremos de rir na hora, mas também deu uma sensação boa de saber que estávamos vivendo de acordo com nossos valores e buscando a sustentabilidade nos mínimos detalhes”, diz McShane.

Abordagem multidisciplinar

Andy Penaluna, professor emérito da Universidade do País de Gales, trabalhou com educação empreendedora no mundo inteiro. Já colaborou com os governos de mais de 50 países, incluindo Egito, Macedônia e País de Gales, – e também com as Nações Unidas e a Comissão Europeia – na elaboração de currículos e estratégias educacionais que desenvolvem habilidades e conhecimentos de empreendedorismo em jovens de todas as idades. Em sua opinião, a educação empreendedora requer uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar, em que sejam aproveitados conteúdos do design, dos clássicos greco-latinos, da neurociência e de outras disciplinas para desenvolver as habilidades exigidas pelo empreendedorismo, assim como o domínio de conceitos de administração, como finanças, investimento e propriedade intelectual. Como membro do Grupo de Gestão de Propriedade Intelectual em Universidades e Faculdades do Reino Unido, Penaluna está convicto de que é essencial iniciar esse tipo de educação o mais cedo possível. Diz ele:

“É comum vermos no ensino superior as pessoas mencionando habilidades como criatividade ou conhecimentos sobre administração ao falar sobre padrões e competências essenciais – mas não há nenhum esforço preparatório antes disso, é algo que simplesmente aparece (...). Se lançarmos essas coisas de repente, elas causam surpresa e preocupação, mas se conscientizarmos os jovens desde cedo e os ajudarmos a construir um entendimento sobre elas, o resultado será muito mais efetivo.”

Na Macedônia, o trabalho do professor Penaluna contribuiu para o desenvolvimento de uma metodologia de educação empreendedora, que começa com alunos de 13 anos e os envolve em uma série de atividades organizadas em torno de cinco temas – inovação e criatividade, contexto, finanças, compreensão do negócio e comunicação –, culminando em um projeto de conclusão de curso em que eles criam e administram suas próprias empresas.

Segundo o estudo Global Entrepreneurship Monitor (GEM), uma educação empreendedora adequada é uma das nove condições estruturais do empreendedorismo necessárias para facilitar e incentivar o surgimento de atividades empreendedoras em qualquer economia. O GEM de 2016 constata que, em economias emergentes, um percentual mais elevado de novos negócios pertence a indivíduos de faixas etárias mais jovens (18 a 24 anos). O estudo indica também que, nas economias mais desenvolvidas, as pessoas demonstram maior confiança em suas habilidades empreendedoras e maior disposição para assumir riscos.

Os jovens empreendedores podem ser uma força poderosa, criando empregos para seus pares, impulsionando o crescimento econômico de seus países e transmitindo valores por meio de suas escolhas empreendedoras.

Isso talvez seja, em parte, reflexo de variações demográficas. Na África, por exemplo, aproximadamente 65% da população têm menos de 35 anos, e os jovens empreendedores podem ser uma força poderosa, criando empregos para seus pares, impulsionando o crescimento econômico de seus países e transmitindo valores por meio de suas escolhas empreendedoras.

Cultivando habilidades empresariais na escola

A entidade filantrópica Teach a Man to Fish atua no mundo inteiro com um foco em educação empreendedora, priorizando países em desenvolvimento por meio de seu modelo Negócios na Escola. Nesse modelo, alunos e professores vivenciam um processo passo a passo para criar seus próprios negócios na escola. A entidade considera a educação empreendedora um elemento vital para dotar os jovens das habilidades, mentalidade e confiança necessárias para enfrentar tempos turbulentos. No caso de alguns alunos dos programas da Teach a Man to Fish, o empreendedorismo é uma via necessária para que consigam sobreviver e sair da pobreza. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade está no cerne de muitos dos projetos da entidade.

Os alunos do Asulma Centre, no Quênia, produziram
fogareiros solares de baixo custo como parte de seu
desafio empresarial, realizado no âmbito do
programa de educação empreendedora oferecido
pela entidade filantrópica Teach a Man to Fish.
Os jovens também desenvolveram um negócio em
paralelo, vendendo briquetes, que não produzem
fumaça ao queimar.
(Foto: cortesia do Asulma Centre, Quênia)

Os alunos do Asulma Centre, no Quênia, produziram fogareiros solares de baixo custo como parte de seu Desafio Empresarial. No país, o carvão é amplamente utilizado para cozinhar, o que contribui para o desmatamento e provoca muitos problemas de saúde em decorrência da inalação de fumaça. Além de mais baratos, os fogareiros solares não poluem o ambiente. Os estudantes também criaram um negócio em paralelo, vendendo briquetes, que substituem o carvão tradicional e não produzem fumaça, para famílias que continuavam a usar fogareiros a carvão. Assim, puderam aprender habilidades empresariais, como a realização de registros contábeis, além de desenvolver estratégias para tentar persuadir as pessoas da comunidade local a mudar sua maneira de cozinhar.

“Não tem sido fácil convencer as pessoas da comunidade, mas pouco a pouco elas estão se dando conta da realidade (...). Gostaríamos de empoderar o maior número possível de pessoas com habilidades empresariais e combater o desmatamento.”

O desmatamento também era uma prioridade para a escola Alpha Core, do Paquistão. Inspiradas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e pela campanha lançada pelo primeiro-ministro Imran Khan, envolvendo o plantio um bilhão de árvores no país, as crianças ficaram curiosas e quiseram saber, antes de mais nada, por que era preciso plantar tantas árvores. Isso as levou à ideia de reciclar papel para produzir artigos de papelaria comercializáveis e reduzir o uso de papel virgem. Os pequenos empreendedores precisaram desenvolver a habilidade da determinação para chegar a um produto final de qualidade e, no processo, também treinaram diversas outras competências, como criatividade, trabalho em equipe, pensamento crítico, liderança e gestão de tempo. Com criatividade, acrescentaram glitter, sementes e corantes alimentícios a suas produções e em pouco tempo ampliaram seu portfólio para incluir, além de folhas de papel, chaveiros, cadernos e outros produtos. Os recursos arrecadados foram doados para uma ONG educacional local com o objetivo de ajudar futuros estudantes a se beneficiar do programa.

Os alunos de idade mais avançada do Instituto Técnico de Honduras, por sua vez, voltaram sua atenção para metais usados, extraídos de aparelhos e máquinas que haviam sido doados para reparos ou reciclagem. Os estudantes perceberam que, além dos componentes que podiam ser vendidos para reciclagem, algumas peças podiam ser empregadas na criação de novos produtos, como lâmpadas de emergência alimentadas com energia solar para a comunidade local usar em momentos de falta de eletricidade.

A ideia satisfazia os critérios estabelecidos pelos próprios jovens, que desejavam produzir algo incomum e que fosse economicamente viável e ambientalmente sustentável. Eles também complementaram seu capital com a criação de chaveiros produzidos por impressão 3D e comercializados na comunidade local. Os estudantes se organizaram de acordo com suas competências e habilidades e, ao longo do processo, aprenderam por conta própria a enfrentar problemas sobre os quais nunca haviam pensado, como a necessidade de comprar os componentes de seus produtos com eficiência em termos de custo.

Evidentemente, determinar quantos desses jovens que se beneficiam da educação empreendedora chegarão a abrir suas próprias empresas não é necessariamente a melhor medida de seu sucesso. Mas de uma coisa não resta dúvida: com a oportunidade de desenvolver habilidades como criatividade, colaboração, determinação, inventividade e iniciativa, os jovens estarão muito mais bem capacitados para enfrentar o futuro incerto e desafiador que se apresenta à sua frente. Como os alunos da escola Alpha Core me disseram quando perguntei se eles iriam usar as habilidades que haviam aprendido quando tivessem crescido:

“A jornada que percorremos com o Desafio Negócios na Escola é algo que valorizaremos para sempre. E as habilidades que aprendemos aqui, no terceiro ano, agora farão parte de “NÓS” para sempre. Queremos aperfeiçoar ainda mais as habilidades que aprendemos! Queremos aprender MAIS!”

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