A geografia da inovação: núcleos locais, redes globais

Dezembro de 2019

Catherine Jewell, OMPI

O Relatório Mundial sobre a Propriedade Intelectual de 2019A Geografia da Inovação: Núcleos Locais, Redes Mundiais destaca a natureza cada vez mais colaborativa e internacional da inovação. O relatório traça a evolução da geografia da inovação nas últimas décadas e revela uma crescente concentração da inovação em alguns grandes aglomerados situados num pequeno número de países. O economista chefe da OMPI, Carsten Fink, comenta algumas das principais conclusões do relatório.

O relatório de 2019 foca que aspecto da geografia da inovação?

Enquanto o Relatório Mundial sobre a Propriedade Intelectual de 2011 se foca nas grandes mudanças geográficas que caracterizam a inovação mundial, o relatório de 2019 explora as razões pelas quais a atividade econômica tende a concentrar-se em torno de aglomerações urbanas ou cidades, e a maneira como isto dá origem a redes de inovação mundiais que geram uma grande parte da inovação do planeta.

Por que motivo ocorre tanta inovação nas cidades?

Os economistas explicaram a distribuição espacial da atividade econômica focalizando-se, como lhes é característico, nas economias de escala e de escopo ou gama, custos de transporte e poupanças. É nas cidades que as empresas encontram trabalhadores qualificados. As pessoas mudam-se para as cidades porque apreciam as comodidades da vida metropolitana e pelos empregos bem pagos que encontram nelas. As cidades são também terrenos mais férteis para o florescimento de ideias, pois os inovadores trabalham em estreita proximidade.

 

Contudo, nos modelos econômicos do século 21, baseados na inovação, existem também outras forças em ação. A tecnologia, especialmente a tecnologia digital, tem facilitado cada vez mais os fluxos de conhecimentos em distâncias cada vez maiores: há uma longa tradição de colaboração científica entre pesquisadores de diferentes universidades e países. As empresas multinacionais (MNC) também têm procurado otimizar o impacto de suas inovações por meio do desenvolvimento de cadeias globais de valor que disseminem suas atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em diferentes lugares. São estes os principais fatores – isto é, a aglomeração urbana e a disseminação de P&D – que vêm dando origem às redes de inovação. O Relatório Mundial sobre a Propriedade Intelectual de 2019 analisa a evolução dessas redes e suas composições.

Que fontes de dados vocês usaram?

Neste aspecto, este relatório é o mais ambicioso que realizamos até hoje. Usamos duas fontes primárias de dados. Primeiro, os dados sobre patentes do período de 1970 a 2017, provenientes de 168 institutos. Os ricos dados bibliográficos encontrados nos documentos de patentes constituem uma útil via de investigação sobre a invenção tecnológica no espaço e tempo. Os dados incluíam cerca de 9 milhões de famílias de patentes (grupos de patentes relacionados à mesma invenção subjacente), enumerando mais de 22 milhões de inventores. Realizamos a geocodificação dos endereços de todos os inventores citados nesses documentos nos níveis de telhado, código postal ou bairros. Segundo, analisamos publicações científicas do site Web of Science, do período de 1998 a 2017. Estes dados totalizam 24 milhões de artigos científicos, que enumeram mais de 62 milhões de autores. Aí também, realizamos a geocodificação de todos os endereços disponíveis nos níveis do código postal e do bairro.  

Quais são as conclusões do relatório?

Primeiramente, observamos que a inovação é um fenômeno cada vez mais local. Determinamos isto por meio de um algoritmo desenvolvido para identificar áreas com a maior concentração de inventores e autores. Dividimos essas áreas em duas categorias: núcleos de inovação e aglomerados de inovação especializada.

Identificamos, no mundo todo, 174 núcleos (áreas com a maior densidade em matéria de inventores e autores). Silicon Valley, por exemplo, é um dos núcleos globais de inovação mais proeminentes. Também identificamos 313 aglomerados de nicho especializado, onde a densidade inovadora é superior (ainda que inferior àquelas dos núcleos de inovação) em uma ou mais áreas de patenteamento ou publicação científica. A região de Neuchâtel, Biel, Berna e Friburgo, na Suíça, é uma dessas aglomerações de nicho especializado.

Onde estão localizados esses núcleos e aglomerados de nicho?

Estão fortemente concentrados na América do Norte, Europa Ocidental e Leste Asiático. Fora a China, e em menor medida, o Brasil e a Índia, existem muito menos núcleos nas economias de renda média. Embora não haja qualquer núcleo na África, encontramos aí um certo número de aglomerados de nicho especializado.

Todos os núcleos e a maioria dos aglomerados de nicho são áreas metropolitanas altamente populosas, muito embora nem todas as áreas metropolitanas atraiam núcleos de inovação ou aglomerados de nichos, como constatamos ao contrapor nossas conclusões aos dados de satélite sobre luz noturna. Nos Estados Unidos, por exemplo, podemos ver muitos núcleos em densas áreas urbanas ao longo das costas leste e oeste. No entanto, muitas áreas urbanas no interior do país não mostram a mesma densidade em matéria de inovação.

Infografia

The top ten collaborative hotspots of the world account for 33 percent of all international co-inventions.

Infografia: Os dez maiores núcleos de colaboração do mundo são responsáveis por 33% de todas as invenções conjuntas internacionais.

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The top ten collaborative hotspots of the world account for 33 percent of all international co-inventions.

Infografia:O impacto da inovação biotecnológica vegetal vai bem além do laboratório. A inovação produzida num núcleo metropolitano pode beneficiar uma área 75 vezes maior do que seu terreno.

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Qual é o grau de importância desses núcleos e aglomerados?

São muito importantes, sendo responsáveis por 85% do total de patentes e 81% do total da atividade científica. Em outras palavras, mais de quatro quintos da inovação mundial ocorre nessas áreas. Os núcleos globais de inovação, especialmente, também desempenham um papel colossal na paisagem global da inovação. Trinta dos principais núcleos metropolitanos – a maioria na China, Alemanha, Japão, República da Coreia e Estados Unidos – são responsáveis por 69% de todas as patentes e 49% de toda atividade científica.

Como está mudando a natureza da inovação?

A inovação está envolvendo mais colaboração. Com base em nossos dados, observamos que muitos inovadores e autores contribuem para invenções e artigos científicos respectivamente. O papel do inventor individual ou do autor científico individual diminuiu com o tempo. As equipes, de tamanho sempre crescente, estão tornando-se cada vez mais importantes. Esta tendência é particularmente marcada no campo da pesquisa científica, em que mais de um quinto das publicações científicas tem seis ou mais autores. Isso se explica por muitos fatores, mas a crescente complexidade tecnológica é um dos mais determinantes. É preciso reunir cada vez mais pesquisadores com conhecimentos ainda mais especializados para se resolverem problemas cada vez mais difíceis.

A colaboração internacional também está em alta. Se compararmos os períodos 1999-2000 e 2011-2015, vemos um aumento no número de invenções conjuntas e colaboração científica. Os núcleos globais de inovação estão tendo um papel de dimensões astronômicas no desenvolvimento desse fenômeno. Por exemplo, Silicon Valley, Nova York, Frankfurt, Tóquio, Boston, Xangai, Londres, Pequim, Bangalore e Paris são responsáveis por 22% das invenções conjuntas internacionais. Quando observamos os 10% das maiores parcerias em matéria de invenção, entre os núcleos globais de inovação e os aglomerados de nichos especializados, tanto nacional como internacionalmente, constatamos que a rede de inovação nos Estados Unidos é bem mais densa do que as de outros países.

Qual é o papel das empresas multinacionais no cenário mundial da inovação?

Nossas constatações revelam que as empresas multinacionais (MNC) encontram-se no centro das redes globais de inovação. As MNC difundiram suas atividades de P&D por todas as suas cadeias de valor, como evidencia nossa análise dos documentos de patente. Ela revela um aumento daquilo a que chamamos "international patent sourcing" (recurso a patentes internacionais) – que ocorre quando um depositante de pedido de patente numa determinada jurisdição enumera inventores de outros países. Nas décadas de 1970 e 1980, o recurso a patentes internacionais ocorria predominantemente entre empresas e inventores de economias de renda alta. Porém, desde então, as MNC vêm progressivamente recorrendo a inventores de países de renda média, e especialmente da China e Índia. É interessante ressaltar que também vemos MNC de economias de renda média – pensemos na brasileira Embraer e na indiana Infosys – recorrendo cada vez mais à engenhosidade de inventores dos Estados Unidos, Europa Ocidental e China.

O relatório também inclui estudos de caso. O que eles revelam?

O relatório traz casos de estudos de duas indústrias que estão atualmente passando por transformações profundas. O primeiro explora o impacto que o advento dos veículos autônomos está tendo no setor automotivo quanto à composição e orientação geográfica da P&D. Nosso relatório revela que a transição tecnológica para veículos autônomos está levando empresas de TI a questionar fabricantes consolidados de automóveis e seus fornecedores. Contudo, apesar de um grande dinamismo tecnológico nesta área, ainda se considera que a condução totalmente automatizada – com veículos capazes de se deslocarem basicamente em qualquer lugar sem a assistência do condutor – provavelmente levará muitos anos, ou até mesmo décadas, para se tornar realidade.

O segundo estudo de caso enfoca a biotecnologia agrícola (ag-biotech), um campo no qual os avanços científicos sempre determinaram o rumo da inovação aplicada. Nós exploramos o potencial de CRISPR, a nova ferramenta que baixou o custo da edição genética e promete lançar novos aperfeiçoamentos genéticos em matéria de colheitas e animais. O estudo de caso destaca o papel proeminente que universidades e organizações públicas de pesquisa desempenham no cenário da biotecnologia agrícola como fontes primárias de inovação, especialmente nas economias em desenvolvimento. Colaboração também é fundamental neste setor. Muitas inovações têm origem no setor das ciências, mas necessitam investimento privado de grande escala para a comercialização.

Nossas constatações também revelam uma concentração de investimentos em P&D nas indústrias de sementes, produtos químicos e fertilizantes, em parte devido aos altos custos da P&D e da comercialização de plantas transgênicas. Em razão da necessidade de se adaptarem as inovações desta área às condições locais, os aglomerados de biotecnologia agrícola estão relativamente mais distribuídos em comparação a muitos outros campos tecnológicos. Nossa análise mostra que existem em todos os continentes aglomerados agrícolas densos em matéria de inovação. No entanto, as jurisdições de alta renda e a China são responsáveis por mais de 55% de todos os artigos sobre biotecnologia de colheita e por mais de 80% das patentes.

Que implicações têm as conclusões do relatório para os elaboradores de políticas públicas?

Nossos dados revelam um cenário global de inovação altamente interligado. Enquanto a tecnologia é fundamental para conectar os núcleos globais de inovação, é importante reconhecer que essas ligações também contaram com um clima de política pública que favoreceu a abertura e a colaboração internacional. Contudo, em meio ao crescente ceticismo acerca da globalização, este ambiente aberto não está garantido. Portanto, nós defendemos que mais do que nunca é importante manter a abertura na busca da inovação. Os fatos sugerem que se está tornando cada vez mais difícil expandir a fronteira global da tecnologia. São precisos esforços de P&D cada vez maiores para se alcançar o mesmo nível de progresso tecnológico do passado. É o caso em muitas áreas, inclusive na saúde e nas tecnologias da informação e do transporte.

A abertura promove uma maior diversidade e especialização na inovação, e auxilia a formação das equipes, cada vez maiores, necessárias para superar desafios tecnológicos sempre mais complexos. Esse tipo de colaboração baseia-se fundamentalmente na cooperação proativa entre os governos em matéria de políticas públicas, como aquelas relativas à propriedade intelectual e à padronização. Ela também se estende ao financiamento conjunto de pesquisas científicas de grande escala que ultrapassam os orçamentos nacionais e exigem conhecimentos técnicos disponíveis em diferentes países. Existem excelentes exemplos de organizações deste tipo que funcionam. É o cado da CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) e da Estação Espacial Internacional.

Outro importante elemento para permitir que a abertura funcione é a necessidade de se tratar das crescentes disparidades regionais em matéria de renda dentro dos países. Tomemos o caso de Israel, que passou a ser chamado de Startup Nation devido a sua vibrante economia de inovação. Um exame mais aprofundado da atividade de inovação no país revela que a Região Metropolitana de Tel Aviv se destaca, sendo de longe líder na área. A região é responsável por 77% de todas as startups e 60% dos empregos high-tech. Os salários são aí cerca de 35% mais elevados do que nas regiões periféricas. É interessante notar que recentemente, Israel desenvolveu políticas para reduzir as disparidades de renda nas zonas periféricas. Este excelente exemplo destaca o fato de que, enquanto os núcleos de inovação mais vibrantes do mundo estão inseridos em redes de inovação, são necessárias políticas públicas que promovam um crescimento baseado na inovação, para o benefício das economias como um todo.


Relatórios Anteriores da Organização Mundial da Propriedade Intelectual

A OMPI produz o Relatório Mundial sobre a Propriedade Intelectual a cada dois anos. Lançado em 2011, o Relatório oferece uma análise aprofundada de tendências específicas nas diversas áreas da PI, da seguinte maneira:

A Revista da OMPI destina-se a contribuir para o aumento da compreensão do público da propriedade intelectual e do trabalho da OMPI; não é um documento oficial da OMPI. As designações utilizadas e a apresentação de material em toda esta publicação não implicam a expressão de qualquer opinião da parte da OMPI sobre o estatuto jurídico de qualquer país, território, ou área ou as suas autoridades, ou sobre a delimitação das suas fronteiras ou limites. Esta publicação não tem a intenção de refletir as opiniões dos Estados Membros ou da Secretaria da OMPI. A menção de companhias específicas ou de produtos de fabricantes não implica que sejam aprovados ou recomendados pela OMPI de preferência a outros de semelhante natureza que não são mencionados.