A 14ª edição dos Jogos Paraolímpicos de Inverno, realizada em Milão e Cortina d'Ampezzo, na Itália, de 6 a 15 de março, foi a maior da história, com mais de 600 atletas representando 55 comitês paraolímpicos nacionais. Segundo os organizadores, o campeonato de hóquei no gelo paraolímpico atraiu um público recorde e foram registradas mais de 400 milhões de visualizações no canal Paralympics do YouTube.
Este sucesso comprova o enorme crescimento dos Jogos Paraolímpicos de Inverno desde a primeira vez que foram realizados na cidade de Örnsköldvik, Suécia, em 1976. O número de atletas participantes mais que triplicou, incluindo 160 mulheres este ano: um aumento de 18% em relação à edição de 2022.
Em Milão-Cortina, foram disputadas 79 provas por medalhas, em seis modalidades paraolímpicas: esqui alpino, biatlo, esqui de fundo, hóquei no gelo, snowboard e curling em cadeira de rodas.
A expansão das Paraolimpíadas refletem um maior interesse nos esportes paraolímpicos, um aumento das oportunidade de participação e mudanças nas atitudes sociais. Porém, deve-se também em parte às melhorias tecnológicas que facilitam, de maneira geral, a prática de esportes paraolímpicos.
Como foi colocado num artigo do site Paralympics New Zealand : “a inovação no gelo e na neve está no centro do crescimento do Movimento Paraolímpico”.
O impacto além dos Jogos
Se a inovação nos esportes paraolímpicos pode contribuir para desempenhos interessantes nas provas, inclusive com quebra de recordes, ela pode também exercer um impacto positivo que vai além das Paraolimpíadas e dos atletas participantes.
Por exemplo, Adaptive Winter Sport é um projeto que conta com o apoio do programa de Educação Gen26 de Milão-Cortina 2026. Seu objetivo é ajudar as federações desportivas italianas a desenvolverem os esportes paraolímpicos de inverno, inclusive por meio de uma doação de equipamentos para hóquei no gelo paraolímpico por parte da P&G, parceira dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos.
A visibilidade dos grandes eventos paraolímpicos pode também contribuir para a conscientização sobre a tecnologia assistiva, em todo o mundo.
Nos Jogos Paraolímpicos de Paris 2024, a Organização Mundial da Saúde e o Comitê Paralímpico Internacional lançaram a campanha “Equipped for equity”, destacando “o papel crucial da tecnologia assistiva, para os atletas paraolímpicos defenderem uma ação mundial coordenada visando a melhorar o acesso a esses produtos de saúde essenciais”.
A campanha concluiu que mais de 2,5 bilhões de pessoas no mundo todo precisam de tecnologias assistivas, como cadeiras de rodas e aparelhos auditivos. Ela apelou para que os países integrassem as tecnologias assistivas em seus sistemas de atendimento médico básico e de saúde universal, declarando: "É essencial que se tomem medidas para tornar as tecnologias assistivas mais acessíveis, incluindo financeiramente, não só para proporcionar às pessoas uma plena participação na vida, mas também para promover um desenvolvimento social e econômico mais amplo. A expansão do acesso a tecnologias de qualidade garantida que sejam seguras e acessíveis reduz os custos de atendimento médico e assistência social, tais como internações recorrentes, e promove uma força de trabalho mais produtiva, o que indiretamente estimula o crescimento econômico”.
Inovação constante
Cada edição dos Jogos Paraolímpicos de Inverno introduz inovações que ampliam a capacidade de desempenho dos atletas. Como o blog Paralympics New Zealand ressalta, nas décadas de 1980 e de 1990 surgiram os primeiros esquis sentados e os membros protéticos aprimorados.
No início do século 21, vieram os monoesquis leves de fibra de carbono, os amortecedores avançados e as próteses de alto desempenho, ao passo que os últimos dez anos trouxeram o rastreamento em tempo real e sistemas de comunicação mais avançados para esquiadores com deficiência visual.
As Paraolimpíadas de Verão também apresentam muitas inovações. Nos Jogos Paraolímpicos de Tóquio 2020, por exemplo, foram introduzidas cadeiras de roda especialmente projetadas para badminton, bicicletas de pista adaptadas e luvas personalizadas impressas em 3D para atletas em cadeira de rodas.
As patentes desempenham um papel crucial para o desenvolvimento, o aprimoramento e a disseminação de tais tecnologias assistivas. É graças a elas que os inventores podem comercializar suas inovações, o que por sua vez possibilita mais pesquisa e desenvolvimento.
O Tratado de Cooperação em matéria de Patentes (PCT), administrado pela OMPI, oferece uma forma de obter proteção por patente para invenções em mais de 150 países, e tem sido amplamente utilizado na área dos esportes para pessoas com deficiência.
Destaque para os pesquisadores universitários
De acordo com o mais recente Relatório SPARK de Tecnologia da OMPI sobre tecnologias desportivas, entre 2016 e 2025 os depósitos de patentes relacionadas com o esporte aumentaram a uma taxa anual composta de 7,6%, superior à taxa de 4,4% relativa às patentes em geral.
O relatório observou também a existência de uma "via distinta" da inovação nos esportes paraolímpicos: “Considerando que 26% das patentes relativas a esportes paraolímpicos provêm de instituições acadêmicas, enquanto a taxa para as tecnologias desportivas em geral é de 17%, os dados revelam um modelo de inovação mais concentrado na pesquisa e mais colaborativo. Isto reflete tanto a complexidade técnica das tecnologias assistivas como uma maior restrição das oportunidades de comercialização, sublinhando o papel essencial da pesquisa pública e dos sistemas de inovação inclusiva para a ampliação da prática de esportes”.
Um exemplo interessante é o pedido PCT referente a uma cadeira de rodas desportiva modular, publicado em 2017, em que os inventores designados são pesquisadores da Universidade de Bérgamo, na Itália. A cadeira compõe-se de um quadro, uma roda dianteira, duas rodas traseiras e um assento.
O pedido de patente publicado indica: “A estrutura do quadro tem ao menos dois lados longitudinais orientados no sentido do movimento da cadeira de rodas e dois lados transversais espaçados e orientados no outro sentido de maneira a formar uma caixa, que assim assume a forma de um compartimento desprovido de elementos estruturais internos destinado a acolher um atleta na posição ideal para propulsar a cadeira de rodas dependendo do nível e do tipo de deficiência do atleta”.
Outro exemplo de inovação produzida numa universidade é um pedido PCT publicado referente a um kit de rodas assimétrico para cadeira de rodas manuais e cadeira de rodas equipada com o kit de rodas mencionado, para facilitar a prática de um esporte de lançamento. Este pedido de patente proveniente da Universidade de Toulon, na França, foi publicado em 2014.
Há também patentes que revelam usos de tecnologia surpreendentes. Por exemplo, uma equipe de pesquisadores do Canadá depositou um pedido de patente para um disco de hóquei audível para pessoas com deficiência visual, publicado em 2023.
O disco fornece aos jogadores com deficiência visual dados sobre a posição e a trajetória do disco por meio de alarmes configuráveis. Pode gerar um, dois ou vários alarmes associados a sua direção e/ou a sua velocidade.
A comercialização da inovação
Embora as universidades detenham a liderança, há um número crescente de empresas concentrando suas pesquisas na área das tecnologias assistivas, incluindo próteses. Por exemplo, a Revista da OMPI publicou um artigo sobre uma empresa em Berlim chamada Ottobock (ver aqui e aqui) especializada na tecnologia ortopédica.
Além disso, um curta do BBC Sounds publicado em março de 2026 apresenta uma entrevista com Mike Schultz, snowboarder paraolímpico estadunidense e fundador da BioDapt Inc, empresa que projeta, fabrica e distribui componentes protéticos de alto desempenho para membros inferiores destinados a esportes radicais e atividades semelhantes.
Também nesta área, a empresa japonesa Bridgestone Corporation é designada como requerente de um pedido PCT publicado em 2021, referente a uma sola para próteses desportivas. A invenção consiste numa sola dotada de uma série de ranhuras que pode ser acoplada à zona de contato com o chão de uma prótese desportiva.
IA e o futuro da inovação
Os próximos Jogos Paraolímpicos serão realizados em Los Angeles em 2028, e os próximos Jogos Paraolímpicos de Inverno acontecerão nos Alpes Franceses em 2030. Dado o ritmo da inovação, é bem provável que vejamos novas tecnologias de melhoria de desempenho nos dois eventos.
Embora ainda seja demasiado cedo para prever que tecnologias serão, há uma boa probabilidade de que a inteligência artificial (IA) tenha um papel essencial. Em Milão-Cortina, o medalhista ucraniano do biatlo Maksym Murashkovskyi já atribuiu seu sucesso ao ChatGPT, afirmando ter usado a ferramenta de IA generativa "como psicólogo, treinador e às vezes médico”.
Mas há ainda outras formas pelas quais a IA pode facilitar a inovação nos esportes paraolímpicos. Uma delas está sendo explorada na Austrália por três professores da Universidade de Queensland e envolve o método de classificação dos atletas, visando a garantir condições iguais para todos sem que ninguém leve uma vantagem injusta.
“Vamos usar a visão computacional de paratletas realizando uma vasta gama de movimentos ao longo do tempo, para treinar o sistema e desenvolver um aplicativo”, escreveram os pesquisadores numa postagem online de 2024. “Com este aplicativo, atletas em qualquer parte do mundo poderão filmar-se realizando atividade relacionadas com o esporte, enviar o vídeo e receber uma classificação exata e objetiva. Isto tornará as classificações mais confiáveis e melhorará o acesso de atletas em zonas rurais e remotas ou em países em desenvolvimento”.
As pesquisas em andamento em áreas como IA, tecnologias de comunicação, sensores e materiais podem conduzir a mais inovações significativas para os esportes paraolímpicos e mais além. Será interessante ver como isto se manifestará nos futuros eventos paraolímpicos.