23 de Abril de 2026

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A startup chinesa Carbon One usa a propriedade intelectual para dar escala à sua tecnologia climática. Neste artigo, a empresa explica como o desenvolvimento da PI é “um processo contínuo, e não um esforço pontual”. As recompensas financeiras por invenções são apenas um exemplo de como a inovação está profundamente enraizada na cultura da empresa.

A crise climática não é apenas motivo de desalento e pessimismo: ela também traz oportunidades. No Acordo de Paris, o problema é apresentado com urgência e metas claras, como reduções profundas nas emissões de gases de efeito estufa e a rápida transição para sistemas de baixo carbono. Essas metas servem como um roteiro.

Nesta minissérie Inovação com Impacto, conhecemos três pequenas e médias empresas (PMEs) que vêm seguindo o roteiro. Finalistas dos Prêmios Mundiais da OMPI 2025, essas PMEs mostram como inovação e estratégia de propriedade intelectual (PI) podem trabalhar em sintonia para escalar tecnologias voltadas a soluções climáticas e transformá-las em negócios sustentáveis.

Recentemente, traçamos o perfil da Baniql, empresa de produção sustentável de níquel que integrou eficazmente a PI ao seu plano de negócios. Neste artigo, destacamos a Carbon One, uma startup do setor de baterias que tem muito a ensinar aos inovadores sobre a importância da PI, pesquisas relativas a patentes e segredos comerciais.

Inovação em baterias com ânodo de silício-carbono

A China domina o mercado global de baterias. Em 2024, o país abrigava seis dos 10 maiores produtores de baterias do mundo e, hoje, fabrica mais de 75% das baterias vendidas no mundo. A Carbon One foi fundada em 2022 e, embora seja pequena, espera ter um impacto muito maior do que seu porte sugere neste setor em expansão.

A partir de sua sede em Quzhou, China, a empresa está desenvolvendo ânodos de bateria de próxima geração. Ela produz uma gama de materiais – do grafite natural e sintético ao carbono duro, lítio metálico e, crucialmente, ânodos à base de silício –, tornando-a uma das poucas empresas de baterias com uma cadeia de suprimento de ânodos integrada, de ponta a ponta.

Os ânodos de silício prometem um grande salto de capacidade, mas se expandem e se degradam rapidamente. Os engenheiros da Carbon One resolveram esse problema com uma solução híbrida. O material carro-chefe da empresa é um ânodo composto de silício-carbono revestido com uma camada especial de polímero que estabiliza a superfície.

O professor Du Ning, presidente da Carbon One, afirma que essa solução aumenta drasticamente a capacidade. Em testes, o material armazena cerca de 10 vezes mais energia do que um ânodo de grafite. “Com esse material, as baterias de smartphones poderiam ultrapassar 7000 mAh, e os veículos elétricos poderiam ganhar mais de 30% de autonomia”, afirma. O resultado são dispositivos com maior duração e mais autonomia, sem aumentar o tamanho da bateria.

A Carbon One também enfrentou um ponto fraco do silício: a tensão gerada pela expansão. Em vez de usar silício em massa, o ânodo desenvolvido pela startup emprega partículas de silício em nanoescala incorporadas a uma matriz de carbono para amortecer essa expansão.

O revestimento polimérico adicional (a camada de interface sólido-eletrólito) forma um filme estável e condutor que protege o ânodo durante cada ciclo de carga. O professor Ning observa que a tecnologia já avançou para a produção em escala e vem sendo testada em baterias para veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia para a rede elétrica e eletrônicos de ponta.

A estratégia de PI da Carbon One para proteger sua tecnologia eficiente de baterias

A Carbon One trata a PI como um ativo estratégico. A empresa realiza pesquisas patentárias aprofundadas para garantir sua liberdade de operação, identificando patentes na área de baterias que possam gerar conflito e desenvolvendo sua tecnologia de modo a contorná-las. Atualmente, a Carbon One conta com um amplo portfólio de PI, composto por mais de 350 pedidos de patente depositados em vários países, além de marcas e direitos de autor correlatos.

“O desenvolvimento da PI é um processo contínuo, não um esforço pontual”, diz o professor Ning. A Carbon One faz da PI parte de sua cultura organizacional ao incentivar os funcionários a inovar e a proteger ideias por meio de sessões de brainstorming entre diferentes departamentos, reuniões regulares de revisão de patentes e até recompensas financeiras por novas invenções.

Para cada nova ideia, a equipe avalia o risco de engenharia reversa para decidir se deve depositar um pedido de patente ou mantê-la em segredo. “Se a tecnologia for fácil de reproduzir, podemos mantê-la em sigilo como segredo comercial. Mas patenteamos qualquer vantagem de desempenho perceptível no produto final.” Na prática, isso significa que a empresa busca patentear qualquer vantagem competitiva visível aos usuários, enquanto os processos subjacentes podem permanecer confidenciais.

Três recipientes de vidro contendo pó cinza-escuro estão dispostos sobre uma superfície branca, com outro recipiente desfocado ao fundo.
Carbon One
Materiais de carbono de alto desempenho desenvolvidos no Instituto Central de Pesquisa da Carbon One.

A Carbon One também escolhe cuidadosamente quando depositar seus pedidos. A empresa antecipa o depósito de pedidos em cada mercado-chave previsto para o lançamento comercial e nas regiões em que os concorrentes atuam, assegurando ampla proteção antes que outros players ocupem esse espaço. A Carbon One também utiliza o Tratado de Cooperação em matéria de Patentes da OMPI (PCT) para avaliar opções de proteção patentária em vários países. A empresa depositou seis pedidos PCT desde 2024, todos indicando o professor Ning como um dos inventores – este é o mais recente.

Uma estratégia sólida de PI também sustenta as parcerias e a captação de recursos da Carbon One. “Nossa PI define as bases quando nos associamos a fabricantes de baterias e parceiros de manufatura”, diz o professor Ning.

A empresa utiliza acordos de confidencialidade e contratos para especificar quem detém qualquer PI desenvolvida em conjunto, resguardar o sigilo e definir garantias e responsabilidades. Definir corretamente, desde o início, esses termos de PI ajuda a proteger a tecnologia da Carbon One e a gerar confiança entre os parceiros.

Lições para inovadores: priorizar mercados estratégicos, patentes e segredos comerciais

Há muito a aprender com a abordagem da Carbon One em relação à propriedade intelectual. O ponto mais importante é que os inovadores devem encarar a PI como um investimento estruturante, e não como algo a ser deixado para depois.

“As startups precisam buscar proteção para novas tecnologias desde cedo”, afirma o professor Ning. Ao fazer isso, elas não apenas reduzem o risco de violação como também se tornam mais atraentes para investidores.

Assim como a Baniql, a Carbon One também fez da PI um elemento central de seu negócio. A empresa determina o que proteger por patente e o que manter como segredo comercial com base na facilidade com que o produto final poderia ser copiado por um concorrente, ao mesmo tempo que adapta seus depósitos internacionais de patentes aos mercados prioritários — neste caso, os principais mercados de baterias.

A Carbon One demonstra que a união entre inovação e gestão estratégica da PI pode gerar um impacto climático real. E sua trajetória até aqui mostra que, com a tecnologia certa e uma estratégia robusta de PI, startups podem enfrentar desafios climáticos e dar escala a soluções com rapidez.

A empresa mencionada neste artigo foi uma das finalistas dos Prêmios Mundiais da OMPI 2025. Selecionados entre um número recorde de 780 candidaturas de 95 países, os 10 vencedores exemplificam como a PI pode ser usada de forma estratégica para ampliar soluções para alguns dos maiores desafios do mundo.

A chamada de 2026 está aberta para candidaturas até 31 de março. PMEs, startups e empresas derivadas de universidades que usem a PI para criar valor para seus negócios são incentivadas a se candidatar.