Há décadas os agricultores dependem de fertilizantes químicos, pesticidas e antibióticos para melhorar suas safras. Porém, a rápida modernização da agricultura para satisfazer novas necessidades não acontece sem seus perigos.
Para resolver este tipo de problema, as empresas de biotecnologia buscam inspiração em organismos vivos e matérias naturais. E assim como suas primeiras inovações em biologia, o uso estratégico da propriedade intelectual (PI) também é importante.
Unibaio: do desperdício à abundância
Todos os anos o setor argentino de frutos do mar produz um volume significativo de resíduos derivados da casca dos crustáceos, grande parte depositado ao longo da costa da Patagônia, como conta o CEO da Unibaio, Matias Figliozzi. Esse acúmulo representa uma ameaça para a vida marinha e para a biodiversidade costeira. Pensando nisso, Figliozzi se perguntou: "E se existisse uma forma de transformar esses resíduos em ativo?".
Fundada em 2020 e com sede em Mar del Plata, Argentina, a Unibaio extrai a quitosana dos resíduos das cascas e transforma esse biopolímero natural em micropartículas que contêm os ingredientes ativos de pesticidas, fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos. Em resumo, a empresa transforma carapaças de caranguejo e cascas de camarão em um adubo biodegradável.
"É como dar um GPS biológico para o pesticida", compara Figliozzi. “Nossas partículas sabem exatamente aonde ir dentro da planta e como chegar lá de forma eficiente. O resultado são lavouras mais saudáveis e com menos insumos químicos."
A Unibaio realizou ensaios de campo em várias culturas. “No milho, o nosso aditivo aumentou a eficácia dos pesticidas em 25% e reduziu o uso de produtos químicos em 40%”, conta Figliozzi. “Nas lavouras de soja ameaçadas por fungos, tivemos o mesmo nível de proteção usando 80% menos fungicidas.”
Os benefícios ambientais são admiráveis. A redução no deflúvio de produtos químicos significa rios mais limpos. Menos pulverizações se traduzem em menos uso de combustível e em menos emissões de gases de efeito estufa. E por se degradarem naturalmente, as partículas de quitosana não deixam qualquer resíduo no solo ou na água.
“A combinação de patentes com segredos comerciais cria várias camadas de proteção.”
Em um setor como o da agrotecnologia, onde o desenvolvimento pode exigir investimentos da ordem de milhões de dólares e a aprovação regulatória pode demorar anos, a propriedade intelectual (PI) tem papel fundamental na proteção da inovação. A Unibaio depositou três patentes relacionadas às suas micropartículas à base de quitosana: arquitetura de carga multicamada, ajuste de tamanho e peso e aplicação em formulações agroquímicas. Essas patentes ancoram as tratativas de licenciamento com grandes empresas, como a Bayer, e ao mesmo tempo impedem que a concorrência copie as principais inovações da Unibaio.
Igualmente importante é o que a Unibaio mantém em sigilo. “As nossas técnicas de ligação, processos de escalonamento e otimizações de formulações são exclusivas e protegidas por normas de segredo comercial e acordos de confidencialidade”, explica Figliozzi. “Combinar patentes de posicionamento de defensivos com segredos comerciais para ter vantagem operacional cria várias camadas de proteção contra a concorrência e possíveis violações.”
A empresa também registrou seus elementos de marca , incluindo o nome e o logotipo da Unibaio e seu primeiro produto comercial, o Turbo Charge. Esses registros reforçam o reconhecimento da marca e representam ativos valiosos da empresa.
PhageLab: viralizando com fagos
Em Santiago, Chile, a PhageLab emprega uma estratégia de PI híbrida semelhante à usada pela Unibaio. As patentes de composições e plataformas protegem suas invenções básicas, que incluem formulações de fagos e métodos de criação orientados por IA. Seus protocolos de produção e o know-how escalonado, entretanto, ainda são segredos comerciais, o que impede os concorrentes de replicarem os processos industriais, mesmo que conheçam a ciência por trás deles.
“Não patenteamos tudo”, revela Mario Carrasco, líder de PI da PhageLab. “Alguns processos são mais bem protegidos como segredos comerciais, principalmente quando envolvem conhecimento tácito difícil de instrumentalizar.”
A PhageLab vem desenvolvendo vírus que atacam bactérias nocivas em rebanhos. Conhecidos como bacteriófagos (devoradores de bactérias, literalmente), esses vírus procuram estirpes bacterianas com uma precisão notável, oferecendo uma alternativa seletiva e natural aos antibióticos de amplo espectro, que podem afetar as bactérias boas do intestino.
“O nosso departamento de PI não se limita a proteger nossas inovações. Ele atua como verdadeiro fomentador.”
A resistência antimicrobiana (RAM) é um dos problemas mais prementes que a agricultura e a saúde pública mundial enfrentam atualmente. A Organização Mundial da Saúde calcula que a RAM causou 1,27 milhão de mortes em todo o mundo em 2019 e que as infecções causadas por bactérias resistentes a medicamentos podem causar 10 milhões de mortes por ano até 2050. A pecuária, que consome cerca de 70% da produção global de antibióticos, se encontra no olho desse furacão: o uso intenso de antimicrobianos no gado, por exemplo, pode resultar na evolução das bactérias resistentes a medicamentos.
“Os antibióticos são como um corte de energia que atinge uma cidade inteira, enquanto os bacteriófagos equivalem a desligar o interruptor de um único circuito defeituoso”, explica Carrasco. “Podemos eliminar a Salmonela ou a E. coli sem tocar nas bactérias boas que mantêm os animais saudáveis.”
A inovação da empresa reside na industrialização da atividade da natureza. Sua plataforma de aprendizado de máquina analisa continuamente genomas bacterianos, identificando vulnerabilidades e combinando-as com candidatos bacteriófagos da sua biblioteca em crescimento.
“Quando estirpes de bactérias inevitavelmente evoluem, nosso exclusivo sistema de IA atualiza automaticamente os coquetéis de bacteriófagos para manter a eficácia”, conta Carrasco. “Essa abordagem dinâmica resolve o problema da resistência antimicrobiana.”
Os resultados iniciais são promissores. “Em ensaios controlados em aviários, os nossos coquetéis de bacteriófagos reduziram a prevalência da Salmonela em mais de 30% em comparação com os controles não tratados. Os ensaios em bezerros leiteiros mostraram sucesso semelhante contra estirpes de E. coli e Salmonela, com os animais tratados apresentando maior ganho de peso, 80% menos morbidez e mortalidade também em queda."
MoonBiotech: revelando o poder dos micro-organismos
Enquanto isso, na China, a MoonBiotech explora a diversidade dos micro-organismos presentes no solo, um dos recursos mais ricos e inexplorados da agricultura, para promover a saúde da terra e a produtividade sustentável.
Com sede em Guangzhou, a empresa, fundada em 2015, é especializada em biofertilizantes microbianos. Sua vasta biblioteca microbiana compreende mais de 320 mil estirpes que representam 22 mil espécies, todas isoladas exclusivamente de ecossistemas de diferentes partes da China. Utilizando seu acervo, a MoonBiotech identifica e aperfeiçoa cepas com funções específicas para três setores fundamentais: agricultura sustentável, biofarmácia e microproteínas alternativas para aplicações alimentares.
“Nossas ambições de IPO se baseiam fortemente nesse comprovado modelo de valor orientado por propriedade intelectual.”
“Todos os solos e amostras biológicas que coletamos trazem consigo o potencial de uma nova solução”, diz a Dra. Armanda, vice‑presidente da MoonBiotech. “Nossa missão é aproveitar a diversidade microbiana da natureza para criar produtos que fortaleçam a agricultura, a saúde humana e a resiliência alimentar.”
“Nossos testes com vegetais nos permitem identificar micróbios altamente funcionais com atributos de proteção ou promoção do crescimento”, completa a diretora de operações da empresa, Dra. Lindsay. As estirpes testadas servem como base para biofertilizantes que podem substituir ou complementar insumos químicos e, ao mesmo tempo, restaurar a vitalidade do solo.
A MoonBiotech busca com afinco a proteção da PI. A empresa já depositou 15 pedidos com base no Tratado de Cooperação em matéria de Patentes (PCT), além de outros nos Estados Unidos, União Europeia, Austrália, Canadá, Japão, República da Coreia e Brasil. Entre os depósitos adicionais incluem-se 85 patentes e 108 marcas na China, seis patentes nos EUA e oito marcas nos EUA, além de vários pedidos no Brasil e na UE.
A abordagem de PI da empresa inclui conformidade com a biodiversidade e compartilhamento de benefícios. “Antes de saírem do nosso laboratório, todas as estirpes são verificadas quanto à identidade do genoma e têm seus termos de compartilhamento de benefícios estipulados”, conta a Dra. Lindsay. “Esse nível de rastreabilidade garante a conformidade das estruturas de biodiversidade e reforça a confiança dos parceiros.”
Esses ativos de PI respaldam as negociações de licenciamento, atraem investidores estratégicos e alavancam o crescimento internacional. Como explica a Dra. Armanda: “Nossa ambição de IPO, planejada para os próximos dois a três anos, baseia-se fortemente nesse comprovado modelo de valor orientado por propriedade intelectual”.
Fortes estratégias de PI são a base para os investimentos iniciais
O desenvolvimento da biotecnologia agrícola exige um enorme investimento inicial, com retornos incertos. As estratégias de PI da Unibaio, da PhageLab e da MoonBiotech, portanto, são conduzidas por forças de mercado.
A Unibaio investiu quase 2 milhões de dólares e calcula que gastará até 6 milhões de dólares para estar comercialmente pronta. “Trata-se claramente de um empreendimento caro”, conclui Figliozzi. “Precisamos justificar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento para conquistar a confiança do investidor e garantir viabilidade comercial de longo prazo. Isso significa otimizar a produção, melhorar a escalabilidade e obter aprovação regulatória, tudo isso enquanto competimos com gigantes químicos bem financiados.”
“Realizamos sessões de treinamento regulares para integrar a mentalidade da propriedade intelectual à cultura corporativa”
A PhageLab também enfrenta custos enormes. “Desenvolver um bacteriófago pode custar milhões, dependendo dos investimentos em instalações, dos sistemas de qualidade e dos processos regulatórios”, revela Carrasco. A empresa prevê uma rodada de financiamento Série B no quarto trimestre de 2026 para explorar soluções para diferentes espécies e a expansão do mercado internacional.
O cronograma de desenvolvimento da MoonBiotech varia dependendo da aplicação. Produtos agrícolas microbianos geralmente exigem de um a dois anos e aproximadamente um milhão de dólares para seu desenvolvimento. Aplicações de pesticidas podem demorar até cinco anos para serem desenvolvidas, devido aos procedimentos regulatórios mais complexos, ao passo que as linhas biofarmacêuticas e probióticas exigem prazos ainda mais longos e maiores investimentos.
Tais investimentos só fazem sentido com uma forte proteção de propriedade intelectual, razão pela qual essas empresas não encaram a PI como um elemento secundário, e sim como parte do DNA organizacional.
“Realizamos sessões de treinamento regulares para integrar a mentalidade da propriedade intelectual à cultura corporativa, garantindo que todos os colaboradores entendam como seu trabalho contribui para a nossa vantagem competitiva”, diz a Dra. Armanda.
“Nosso departamento de PI não se limita a proteger nossas inovações. Ele atua como verdadeiro fomentador”, afirma Carrasco, da PhageLab. “Temos um programa de fomento de patentes que incentiva a participação do colaborador, com recompensas financeiras para inovações com forte potencial de patente.”
“Sua propriedade intelectual é um trampolim para o crescimento, e não apenas uma forma de proteger sua tecnologia.”
A Unibaio se associou à Itera para gerenciar os direitos de propriedade intelectual e criar valor com a inovação. “Criamos processos internos para identificar e proteger nossas inovações, incluindo cláusulas de confidencialidade e de direitos de propriedade intelectual em acordos com colaboradores e parceiros estratégicos", explica Figliozzi.
Ao construírem uma cultura centrada na propriedade intelectual, essas empresas encorajam o colaborador a atuar como explorador e motor da inovação para identificar descobertas patenteáveis antes da concorrência.
Fundamentos da propriedade intelectual: dicas práticas para inovadores
Podemos aprender muito com a abordagem de PI desses inovadores. Em primeiro lugar e acima de tudo: seja oportuno e estratégico ao registrar sua propriedade intelectual. Tão logo um avanço no laboratório pareça comercialmente viável, afirma a Dra. Armanda, inicie os trâmites jurídicos para proteger a tecnologia à medida que prosseguem a pesquisa e o desenvolvimento.
Carrasco insta as empresas a tratarem a propriedade intelectual como um ativo e não como mera barreira defensiva. “Sua propriedade intelectual é um trampolim para o crescimento, e não apenas uma forma de proteger sua tecnologia”, diz ele, que incentiva os empresários a refletirem sobre como as patentes podem servir para abrir mercados, atrair parceiros e criar receitas, e não apenas para bloquear concorrentes.
“As patentes devem corresponder a marcos de comercialização. Deposite uma patente importante antes de uma grande apresentação ou conversa sobre licenciamento”, recomenda Figliozzi, salientando a importância de alinhar a propriedade intelectual aos objetivos da empresa. Para ele, é imprescindível que pequenas e médias empresas (PMEs) usem sua propriedade intelectual para demonstrar disponibilidade para a próxima fase de desenvolvimento, seja um ensaio de campo, envio de documentação regulatória ou escalonamento.
As três empresas recomendam investir na cultura da propriedade intelectual, incentivando seu pessoal a identificar e relatar invenções, comemorando a concessão de patentes e conduzindo processos de treinamento e divulgação claros, para que os cientistas possam se tornar verdadeiros defensores da proteção.
Acima de tudo, porém, as três empresas tratam a propriedade intelectual como um trabalho contínuo, não uma tarefa única. A proteção deve servir para defender a empresa e proporcionar crescimento que perdure para além dos pedidos de registro iniciais.
Em conjunto, as três empresas representam um novo modelo para a inovação agrícola e a gestão da propriedade intelectual, provando que, com a combinação certa de desenvolvimento e estratégia científica, as pequenas empresas de biotecnologia podem ter um impacto que supera seu tamanho.
À medida que se expandem para o mundo, suas soluções de base biológica oferecem esperança para alimentar populações cada vez maiores sem destruir os ecossistemas que nos sustentam. Nas palavras da Dra. Lindsay, “trabalhar com biotecnologia não se limita a descobrir coisas; também temos a tarefa de criar sistemas de confiança”.
As empresas mencionadas neste artigo foram finalistas dos Prêmios Mundiais da OMPI 2025. Selecionadas entre um número recorde de 780 candidatas de 95 países, as finalistas exemplificam como a propriedade intelectual pode ser utilizada estrategicamente para dimensionar soluções para grandes desafios mundiais.
Podem concorrer anualmente ao prêmio pequenas e médias empresas, startups e empresas derivadas de universidades que utilizam a propriedade intelectual para criar valor para seu negócio. A próxima chamada será aberta antes do final do ano. Acompanhe este espaço.
Sobre o autor
Paul Omondi é escritor especializado em tecnologia, propriedade intelectual, sustentabilidade e negócios, tendo como foco a interseção entre inovação e soluções de impacto.