Da ideia à produção: amplificando as vozes da próxima geração

Março de 2022

Roxanne Peters, especialista em formação em propriedade intelectual em indústrias criativas e culturais da Universidade das Artes de Londres, Reino Unido

A pandemia de Covid-19 teve um impacto incalculável na economia mundial, no tecido de nossa sociedade e no próprio sentido que damos a nossa existência. Estamos mais conectados do que nunca e procuramos nos adaptar à aceleração das transformações digitais para criar, comunicar e consumir. A pandemia também representou uma oportunidade para que procurássemos pensar com mais inteligência, fazer melhor as coisas e ter mais consciência das decisões que tomamos hoje e que afetarão não só o nosso futuro, mas o futuro da nossa sociedade e do meio ambiente.

O especialista em economia urbana Richard Florida diz que:

“(...) a ‘classe criativa’, incluindo designers, artistas e trabalhadores intelectuais altamente especializados, atua como motor da inovação e do desenvolvimento urbano, estruturando redes e núcleos criativos para o desenvolvimento econômico, social e cultural de suas cidades e regiões pdf.”

Para o setor criativo e cultural, a pandemia realçou “a natureza precária do trabalho dos artistas” e sua vulnerabilidade “aos choques econômicos causados pela crise”.

Para quem já tem um emprego ou está começando seu próprio negócio, este é um momento crítico, marcado pela preocupação em garantir sobrevivência e proteção, e, em alguns casos, um recomeço. Mas e quanto à próxima geração de indivíduos que impulsionam mudanças, inovações e novas formas de pensar? Como eles podem se preparar para o mundo em que pretendem fazer a diferença e quais são as responsabilidades dos educadores que desejam ajudá-los a amplificar suas vozes?

Encarando o futuro da atividade criativa

Ashwini Deshpande é estilista e tecnóloga. Ela criou o software
Art-Z, que usa inteligência artificial para reduzir o  desperdício de
tecidos no momento de cortar industrialmente cada peça de roupa
e, assim, eliminar por completo as sobras de tecido.
(Foto: © Ashwini Deshpande)

Em um momento crítico de seu desenvolvimento profissional, criadores e inovadores em formação precisaram se adaptar a novas maneiras de se relacionar com seus educadores, a um tempo menor de prática de estúdio e a oportunidades reduzidas para desenvolver relações por meio de interações orgânicas. Apesar disso, esses obstáculos também fizeram surgir maneiras inovadoras de cultivar práticas cocriativas e levaram a recomeços, e isso é estimulante.

A interdisciplinaridade e a internacionalização são características cada vez mais marcantes do dia a dia de criadores e inovadores, que mais do que nunca estão em condições de formar comunidades e aprender uns com os outros. Essa capacidade de pensar e fazer coletivamente está moldando o futuro. E não se deve esquecer que as práticas colaborativas são um aspecto intrínseco da produção cultural. O “digital”, nesse contexto, constitui-se como ferramenta de comunicação, plataforma de promoção, ou solução para problemas.

Nessa dinâmica de práticas globais, a propriedade intelectual (PI) é um ativo fundamental para promover a inovação, o crescimento econômico e a construção de futuros sustentáveis. Como um sócio invisível, a propriedade intelectual lubrifica as engrenagens do comércio e incentiva os intercâmbios criativos e culturais, além do seu potencial para desempenhar papel importante em iniciativas centradas nas relações humanas e preocupadas com a questão social.

A propriedade intelectual atua na intersecção do design, da inovação e da tecnologia. A importância crescente dos ativos intangíveis de PI, como os conhecimentos tácitos, e as considerações éticas e econômicas relativas à proteção das expressões culturais tradicionais em diferentes partes do mundo fazem com que a propriedade intelectual esteja cada vez mais no centro das atenções das empresas. Quando se leva em conta ainda o vigor atual das redes de pequenos negócios, pode-se dizer que nunca houve momento tão propício para incorporar integralmente a propriedade intelectual a programas de formação voltados para empreendimentos criativos.

Com a economia mundial se reconstituindo após o choque da pandemia de Covid-19 e os futuros empreendedores se preparando para a vida profissional, é fundamental que eles estejam atentos para a importância de considerar a propriedade intelectual como um elemento intrínseco de seus projetos.

Promovendo mudanças positivas por meio da educação e formação em propriedade intelectual

Até pouco tempo, a formação em propriedade intelectual destinava-se essencialmente a futuros profissionais da área jurídica. Foi só com a recente expansão da economia criativa, e o reconhecimento de seu valorpdf, que se começou a pensar em incluir a formação em propriedade intelectual em cursos interdisciplinares na área de negócios, inovação e empreendedorismo. Em âmbito mundial, há algumas iniciativas notáveis de incorporação da formação em PI a cursos não jurídicos, como no Japão, que em 2002 adotou em sua legislação educacional a determinação de que “as universidades e instituições similares promovam a formação e o aprendizado em matéria de propriedade intelectual”. Na Austrália, diversas universidades oferecem a disciplina Questões de Propriedade Intelectual.

Por sua vez, no Reino Unido, a Universidade das Artes de Londres (UAL) está em primeiro lugar no ranking das instituições cujos estudantes, uma vez formados, abrem seus próprios negócios. A UAL é líder em formação voltada para o empreendedorismo criativo e propõe-se a fazer com que seus estudantes internacionais reconheçam, na prática, o valor da ação criativa, oferecendo apoio financeiro e comercial para programas de aceleradoras e incubadoras e organizando intervenções com parceiros de destaque do setor de criação e inovação.

A pequena equipe de formação em propriedade intelectual da UAL interage intensamente com os estudantes – incluindo os graduados – para ajudá-los a fortalecer sua autoconfiança e tomar decisões bem fundamentadas ao se envolver em iniciativas de criação e colaboração com terceiros. Em vez de se preocupar exclusivamente com a transmissão de conhecimentos em uma estrutura rígida de ensino, sua abordagem única se baseia no reconhecimento da importância dos fatores motivadores para criadores e inovadores, concentrando-se em apoiá-los e orientá-los na resolução de problemas. Segundo essa abordagem, são fundamentalmente duas as áreas em que o potencial da propriedade intelectual é explorado.

Em primeiro lugar, a propriedade intelectual tem um papel ativo em um contexto educacional focado na prática, onde os criadores aprendem “colocando a mão na massa” e são incentivados a desenvolver o pensamento crítico necessário para transformar uma ideia em inovação e causar impacto no mercado mundial. Em segundo lugar, a PI é um elemento intrínseco na elaboração de uma estratégia de negócios, bem como na identificação e proteção dos valores e princípios de cada indivíduo, de suas responsabilidades e reputação.

Essa abordagem foi incorporada a um recurso de ensino à distância sobre propriedade intelectual, desenvolvido em conjunto com criadores da UAL e destinado à próxima geração. O recurso reúne vozes e experiências de criadores que se encontram nas primeiras etapas de sua prática profissional, além de oferecer um espaço de autorreflexão e compreensão do papel ativo que a propriedade intelectual desempenha na definição do futuro que queremos para nossas vidas e na identificação de fontes de receitas e práticas sustentáveis.

Reimaginando e redesenhando a moda

Diferentes tipos de direitos, como os direitos de autor (obras criativas), os direitos sobre marcas (marca e reputação), os direitos sobre desenhos industriais (formas) e os direitos sobre patentes (invenções), protegem diferentes tipos de inovação e produção criativa. Importante para criadores, os direitos de autor protegem a expressão de uma ideia – não a ideia em si –, como uma obra de arte ou o design de um site na internet. Portanto, ao decidir a qual direito de propriedade intelectual pretendem recorrer, é importante que os criadores reflitam sobre o que desejam proteger, por que e como.

Muitas das ideias elaboradas pelos estudantes durante a prática criativa vão mais além dos modelos de negócio tradicionais, cuja principal motivação são os ganhos financeiros. As ideias dos alunos da UAL envolvem empreendedorismo social, propostas de solução para problemas sociais ou culturais e projetos de empreendedorismo ambiental, buscando gerar impactos positivos no meio ambiente com a utilização de processos sustentáveis. pdf

Ellen Rock, uma estilista de moda e designer de tecidos que vive em Londres, usa estampas cheias de cor e vida como forma de expressar sua voz, colaborando com comunidades globais em produtos e projetos liderados por artesãos. Ellen vê a propriedade intelectual como um “elemento essencial para o desenvolvimento e evolução da marca”. (Foto: © Janakpur Women's Development Centre)

No contexto das indústrias criativas, é a necessidade de reimaginar o futuro da moda que talvez constitua o mais visível chamado à ação. Para a estilista de moda masculina Bethany Williams, que também patrocina causas sociais e é ativista pela sustentabilidade e pelo combate às mudanças climáticas, a moda abrange todas as atividades econômicas, da agricultura às comunicações, e por isso tem um impacto imenso no planeta, já que produz  80 bilhões de novas peças de roupa por ano e emprega uma em cada seis pessoas no mundo”.

Por sua vez, depois que os lucros da indústria da moda sofreram uma queda estimada em 93% em 2020, as empresas do setor passaram a reavaliar seus modelos de negócio, enxugando operações e realinhando posicionamentos para responder às mudanças no comportamento dos consumidores.

A educação em moda constitui uma oportunidade para que a próxima geração se conecte com tecnologias globais e inovações empresariais, usando sua intuição e sua imaginação para direcionar o setor para práticas mais sustentáveis, transparentes e inclusivas.

Do ponto de vista da propriedade intelectual, há vários aspectos que os novos empreendedores de moda devem levar em conta, como a compreensão da aplicação da legislação de direitos de autor para a comunicação no universo da moda, a importância de ampliar a visibilidade da identidade de marca e o reconhecimento do papel dos ativos intangíveis de PI em novas ideias, metodologias e serviços. Na etapa de concepção de um novo produto, quando tecnólogos, cientistas e outros especialistas colaboram para transformar uma ideia em realidade – e, no limite, em um negócio com alto potencial de escala –, é indispensável que todos saibam exatamente quem é dono de quê.

Os estudos de caso apresentados a seguir indicam alguns dos elementos relacionados à propriedade intelectual que os estudantes devem levar em conta na passagem do meio acadêmico para o profissional, do mundo das ideias para o universo do mercado.

A estilista e tecnóloga Ashwini Deshpande (@aforashwini) formou-se na Escola de Moda de Londres em 2021. Em sua opinião, “o futuro de toda e qualquer atividade produtiva reside na tecnologia e cabe a ela fazer a diferença na criação de uma economia circular”. Ashwini criou o software Art-Z no âmbito de uma colaboração com a Microsoft. O software usa inteligência artificial para reduzir o desperdício de tecidos no momento de cortar industrialmente cada peça de roupa e, assim, eliminar por completo as sobras de tecido. Como empreendedora e estudante internacional, Ashwini diz que, ao resolver transformar sua ideia em um negócio, recebeu orientações sobre como proteger sua propriedade intelectual. Quando sua ideia começou a chamar a atenção de outras pessoas, Ashwini se viu pressionada a decidir o que deveria revelar para aqueles cujo apoio desejava conquistar, sem que isso significasse abrir mão do controle que ela tinha sobre o seu trabalho. “Basicamente, eu precisava que as pessoas assinassem acordos de confidencialidade, mas também usei de bastante tato e diplomacia, porque nem sempre é fácil aplicar esse tipo de acordo, ainda mais quando há grandes empresas envolvidas. Lidar com questões de propriedade intelectual se revelou algo bastante complicado. Ainda bem que pude contar com a ajuda de advogados e professores que me orientavam.”

Para Ashwini, a atenção à propriedade intelectual nas primeiras etapas do desenvolvimento de seu produto contribuiu para fazer da PI um elemento fundamental da sua estratégia de negócios. Futuramente, com o aprimoramento de seu software, a estilista e tecnóloga pretende buscar maneiras de internacionalizar sua criação, de modo que o Art-Z se torne uma solução universal para reduzir o desperdício de tecidos.

Para o estilista e proprietário de marcas brasileiro João Maraschin (@joaomaraschin), que vive em Londres, sua prática criativa é “um chamado à ação comunitária e baseia-se em dois princípios fundamentais: sustentar conexões verdadeiras e respeitar o trabalho desenvolvido por artistas marginalizados mundialmente, explorando o conceito de sustentabilidade social e ambiental com uma moda centrada no ser humano, preservando técnicas manuais, como crochê e bordado, e, ao mesmo tempo, trabalhando com novas descobertas em matérias-primas”.

Para o estilista e proprietário de marcas brasileiro
João Maraschin, sua atuação é “um chamado à
ação comunitária e baseia-se em dois princípios
fundamentais: sustentar conexões verdadeiras e
respeitar o trabalho desenvolvido por artesãos
marginalizados mundialmente”.
(Foto: © Joao Maraschin)

“Entro em contato com muitos artesãos cujas técnicas estão desaparecendo por falta de demanda. Isso faz com que as gerações mais jovens se sintam desestimuladas a manter essas técnicas vivas. Também tenho visto gente de mais idade perder espaço na indústria da moda e pessoas maduras sendo excluídas de várias maneiras do sistema”, observa ele.

A visão de João se materializa no uso da proteção de marca para desenvolver a identidade de suas marcas e reflete a interação da propriedade intelectual com um saudável envolvimento ético. Ao formar-se na Escola de Moda de Londres, João se preocupou em avaliar qual seria a melhor forma de comunicar seu compromisso com uma atuação transparente e inclusiva. Sua presença na internet tem como ponto de partida uma declaração de impacto positivo e serve de exemplo para os criadores que pretendem atuar como líderes na linha de frente, enfrentando a desigualdade e promovendo a sustentabilidade cultural.

A incorporação da propriedade intelectual a uma estratégia de negócios é fundamental, mas é importante que ela sirva para impulsionar, e não limitar, as iniciativas empreendedoras. Como a colaboração está no cerne das práticas criativas, é indispensável que a propriedade intelectual seja considerada nesse contexto. Ellen Rock, uma estilista de moda e designer de tecidos sediada em Londres que usa estampas cheias de cor e vida como forma de expressar sua voz, colaborando com comunidades globais em produtos e projetos liderados por artesãos, diz que suas iniciativas se baseiam na “crença fundamental de que o produto final se fortalece com a combinação de energias e esforços. Por meio da colaboração, uma ideia vence distâncias maiores do que qualquer projeto individual, além de promover a transferência de conhecimentos e o compartilhamento de objetivos comuns”, diz ela. Ellen (@ellenrockstudio) aprendeu a lidar com as complexidades da propriedade intelectual ao administrar sua marca e seus desenhos registrados em uma plataforma internacional. Para ela, a propriedade intelectual é “parte integrante do desenvolvimento e evolução da marca, estabelecendo o direito do criador como um líder em sua área de atuação e integrando uma visão futurística fundamentada no mundo dos negócios. Funciona como um ponto de apoio e um símbolo de confiança quando você está trabalhando em nome dos seus clientes”, observa ela.

O entusiasmo e o comprometimento de João e Ellen com o reconhecimento da importância da preservação e da sustentabilidade cultural como prática de negócios está no âmago da formação e educação em propriedade intelectual. Para os que colaboram com comunidades locais e indígenas que lutam para preservar e celebrar técnicas e conhecimentos artesanais tradicionais, isso envolve uma dimensão moral e ética. Embora essas comunidades tenham “o direito de manter, controlar, proteger e desenvolver seu patrimônio cultural, seus conhecimentos tradicionais e suas expressões culturais tradicionaisPdf”, essa noção conceitual está alicerçada em complexas incertezas técnicas e jurídicas, sobretudo no que diz respeito à própria definição de expressões culturais tradicionais e os objetivos e beneficiários de sua proteção.

(...) a propriedade intelectual é um ativo fundamental para promover a inovação, o crescimento econômico e a construção de futuros sustentáveis. Como um sócio invisível, a propriedade intelectual lubrifica as engrenagens do comércio e incentiva os intercâmbios criativos e culturais,

“Como a colaboração está no cerne das práticas criativas, é
fundamental que a propriedade intelectual seja considerada
nesse contexto.” (Foto: © Joao Maraschin)

A propriedade intelectual pode ser vista como uma forma de proteção e uma maneira de reter valor para essas comunidades. No entanto, muitas práticas comunitárias são passadas de uma geração para a próxima; não pertencem a um único indivíduo, fazendo parte de um conjunto de crenças e tradições compartilhadas. Por ser normalmente identificada com a proteção e remuneração da produção criativa de um indivíduo, a propriedade intelectual mostra-se deficiente nessa área.

Com a economia mundial se reconstituindo após o choque da pandemia de Covid-19 e os futuros empreendedores se preparando para a vida profissional, é fundamental que eles estejam atentos para a importância de considerar a propriedade intelectual como um elemento intrínseco de seus projetos. A formação e educação em propriedade intelectual não pretende oferecer todas as respostas. Seu objetivo é incentivar a próxima geração a liderar na linha de frente, a reconhecer o valor da ação criativa e a usar suas perspectivas e seu pensamento crítico para tomar decisões que podem não resultar em sucesso financeiro, mas produzirão impactos positivos no longo prazo.

Como diz João: “basicamente, considero o meu impacto social e ambiental como a principal medida do meu sucesso como empresário, e priorizo esse impacto mesmo em situações em que ele não se traduz em lucratividade. Acho que o futuro da moda depende do respeito, ao planeta e às pessoas, e a sustentabilidade é absolutamente inegociável”.

A Revista da OMPI destina-se a contribuir para o aumento da compreensão do público da propriedade intelectual e do trabalho da OMPI; não é um documento oficial da OMPI. As designações utilizadas e a apresentação de material em toda esta publicação não implicam a expressão de qualquer opinião da parte da OMPI sobre o estatuto jurídico de qualquer país, território, ou área ou as suas autoridades, ou sobre a delimitação das suas fronteiras ou limites. Esta publicação não tem a intenção de refletir as opiniões dos Estados Membros ou da Secretaria da OMPI. A menção de companhias específicas ou de produtos de fabricantes não implica que sejam aprovados ou recomendados pela OMPI de preferência a outros de semelhante natureza que não são mencionados.