Todos os anos, entre o fim de junho e meados de julho, os melhores tenistas do mundo encontram-se no All England Lawn Tennis Club para competir numa quadra que é quase tão famosa quanto eles próprios. A grama da quadra de Wimbledon é um componente muito bem guardado da identidade do torneio – e faz parte do sistema de propriedade intelectual (PI) que a maioria dos fãs do esporte nunca verão.
"As variedades exatas de grama utilizadas em Wimbledon não estão publicamente divulgadas", explica Stig Oddershede para a UPOV, União Internacional para a Proteção das Obtenções Vegetais. “Não se pode simplesmente ir à floricultura do bairro e pedir a "mistura Djokovic".
Oddershede é o diretor de comunicação da DLF, empresa dinamarquesa que fornece sementes para mais de 100 países. Segundo ele, é comum gramados de alto desempenho deste tipo serem protegidos por direitos de obtentores vegetais, com foco no azevém – que é a espécie utilizada em Wimbledon – selecionado por sua resistência ao desgaste, rápida recuperação, densidade e consistência visual.
“As quadras de Wimbledon passam por uma certa transformação durante o torneio, especialmente no nível das linhas de base, onde, durante duas semanas, os tenistas praticamente tentam cavar um buraco até o outro lado do planeta.”
A genética, acrescenta Oddershede, é apenas metade da história; a consistência ano após ano depende, em igual medida, de uma gestão especializada do gramado. Esta combinação – um cultivar protegido que foi desenvolvido ao longo de muitos anos, aliado aos cuidados no local – define boa parte dos gramados utilizados em esportes de alto nível.
O direito de PI que sustenta isso é a proteção de variedades vegetais (PVV): um sistema criado sob medida para as novas variedades vegetais, ou cultivares, e regido internacionalmente por um quadro administrado pela UPOV.
“Do primeiro cruzamento até o cultivar definitivo, o processo leva geralmente mais de 10 anos”
A Ata de 1991 da UPOV estabelece que, para poderem ser protegidos, os cultivares devem ser novos, distintos, uniformes e estáveis. De acordo com o banco de dados da UPOV, existem quase 7.000 cultivares, atualmente protegidos por diversos membros da UPOV, que são próprios para o uso em gramados para quadras de tênis, campos de futebol, de críquete e de golfe, assim como quadras poliesportivas.
O processo de obtenção de novas variedades de gramado
Os prazos envolvidos são longos. “Nos bastidores, os obtentores de cultivares trabalham com milhares de pequenas parcelas de ensaio, testando e comparando os diferentes candidatos em todo tipo de condições”, explica Oddershede para a UPOV. Os obtentores avaliam as seguintes qualidades da grama: desgaste, recuperação, densidade, uniformidade e resiliência climática. "Do primeiro cruzamento até o cultivar definitivo, o processo leva geralmente mais de 10 anos".
Os testes são rigorosos. Os cultivares são submetidos a ensaios em vários locais e expostos a invernos frios, verões quentes e secos, assim como a uma séria de doenças. "No quesito resistência ao desgaste, é tudo bastante real: cilindros pesados com pinos de aço são arrastados pelas parcelas de ensaio, para simular o impacto dos jogadores de futebol."
Crystal Fricker, obtentora de cultivares nos Estados Unidos, que já desenvolveu quase 400 variedades vegetais no decorrer de décadas, descreve uma cronologia semelhante em seu país. "Desenvolver uma variedade de gramado para campos esportivos em todo o mundo requer ao menos 10 anos de pesquisas, cruzamentos e testes em vários locais", explica para a UPOV. "Para a Copa do Mundo no Catar, começamos a testar nossos cultivares oito anos antes do evento".
A proteção de variedades vegetais para gramados esportivos
A proteção de variedades vegetais concede ao obtentor de um novo cultivar um direito exclusivo, durante um prazo definido, para controlar sua produção, reprodução, acondicionamento e venda, assim como a exportação do material de propagação.
Nos termos da Ata de 1991 da UPOV, o prazo mínimo de proteção é de 20 anos para a maioria das espécies, e de 25 anos para árvores e videiras. Em troca, o obtentor divulga o cultivar e submete-o a exame técnico.
Fricker descreve o processo do ponto de vista do obtentor. "A proteção de variedades vegetais é um método legal para salvaguardar os direitos dos obtentores, pois reconhece aqueles que investiram anos e muitas vezes somas consideráveis para desenvolver novos cultivares", explica.
Quando se deposita um pedido, devem-se apresentar dados morfológicos no primeiro ano a contar da venda da semente, e uma comparação com as variedades padrão existentes confirmando que o novo cultivar é, de fato, distinto. "Esse processo ajuda a proteger os obtentores contra imitações ou variedades que só mudam de nome".
"Muitos cultivares podem não atender às expectativas: 90% deles são descartados"
O sistema possui uma dimensão internacional. "Os direitos internacionais dos obtentores vegetais nos permite proteger nosso cultivar em vários países", acrescenta Fricker. Os pedidos podem também ser depositados país por país. Esse método, reconhece Fricker, requer “muito tempo e dinheiro”, mas vale a pena para salvaguardar a genética por trás dos cultivares de grande valor.
Sem este suporte jurídico, é difícil manter a economia da obtenção vegetal. "Desenvolver novos cultivares é algo extremamente oneroso, custando muitas vezes milhões de dólares. Além disso, muitos podem não atender às expectativas: 90% deles são descartados", explica Fricker à UPOV.
Nos mercados sem proteção, os produtos podem ser vendidos como "variedade não especificada" (ou VNS: "variety not stated"), sem quaisquer garantias em matéria de desempenho ou genética. Segundo Oddershede, é a PVV que faz com que todo esse esforço valha a pena. "Essa proteção dá aos obtentores uma oportunidade justa de recuperar seus custos", explica ele para a UPOV.
"Sem ela, cai o incentivo para investir, e também o ritmo da inovação". Nos mercados em que a proteção é fraca, acrescenta, o número de projetos de obtenção vegetal é inferior e os melhoramentos são mais lentos.
Os testes das novas variedades de gramados de futebol para a Copa do Mundo da FIFA 2026
Existe uma ligação direta entre a PI e a pesquisa de gramados esportivos. Oddershede afirma que, na preparação para a Copa do Mundo da FIFA 2026, uma série de cultivares foram testados no âmbito de pesquisas realizadas em instituições como a Universidade do Tennessee e a Universidade Estadual do Michigan.
“As mudanças climáticas estão tornando mais complexa a gestão de gramados, devido à maior frequência da pressão de secas, altas temperaturas, fortes chuvas e doenças”
A FIFA estabelece as normas e cada estádio seleciona a variedade que apresenta o melhor desempenho levando em conta suas condições específicas. "Esse nível de pesquisa de longo prazo em vários locais depende da proteção de variedades vegetais. Ela oferece a base financeira que torna tudo isso possível".
O torneio de Wimbledon e a Copa do Mundo da FIFA são os casos mais visíveis, mas a pesquisa de gramados está enraizada em todo o universo dos esportes profissionais.
"A inovação dos gramados mudou o jogo discretamente em muitos esportes", afirma Oddershede. Os cultivares modernos oferecem melhor resistência ao desgaste e às doenças, bem como mais densidade e consistência que as variedades anteriores.
Uma colaboração estreita com os técnicos de manutenção dos gramados e as organizações esportivas garante que as novas variedades atendam às diferentes necessidades de cada esporte. "Na prática, isto significa: greens de putting mais lisos no golfe; mais estabilidade dos jogadores de rúgbi nos scrums; e campos de futebol que não se tornam lama no meio do jogo".
O desenvolvimento de gramados resistentes ao clima para campos esportivos
Uma parte integral do universo dos gramados para os esportes mundiais é a obtenção de cultivares para climas diferentes. Fricker destaca a Pure Dynasty, uma nova espécie que apresenta bons desempenhos em climas quentes, resiste a pisoteio intenso e tolera água e solos de baixa qualidade.
Outro trabalho recente teve como foco a tolerância à sombra e a resistência ao pisoteio, qualidades relevantes em estádios onde pode haver baixos níveis de luz natural.
"As mudanças climáticas estão tornando mais complexa a gestão de gramados, devido à maior frequência da pressão de secas, altas temperaturas, fortes chuvas e doenças", afirma Oddershede. Em resposta a isso, os obtentores estão desenvolvendo variedades testadas em condições de estresse controlado e em diferentes ambientes, com o objetivo de produzir gramas que exijam menos insumos e, ao mesmo tempo, mantenham desempenhos consistentes.
"Este tipo de pesquisa caracteriza-se pelo uso intenso de recursos", acrescenta, "e a proteção de variedades vegetais desempenha um papel fundamental, garantindo que os obtentores possam continuar investindo em soluções para condições futuras".
Fricker ressalta que estão também sendo incorporadas características específicas na próxima geração de cultivares. "Os obtentores vegetais estão trabalhando incansavelmente para desenvolver gramas que usam menos água e ainda mantêm um verde e um crescimento aceitáveis".
“A proteção de variedades vegetais é o que torna possível esse tipo de inovação”
A tolerância ao estresse térmico por calor está também sendo introduzida em certas espécies. "Os direitos de PI incentivam esses avanços ambientais, apoiando o investimento em novos cultivares", explica.
De acordo com Oddershede, as variedades de azevém tetraploid 4turf® ilustram perfeitamente o que foi possível graças à proteção de variedades vegetais. Em vez dos habituais dois conjuntos de cromossomos, elas contêm quatro. O resultado, em matéria de gramados esportivos, é uma implantação mais rápida, sistemas de raízes mais fortes e uma maior tolerância ao estresse e às doenças.
“Avanços como este são o resultado de esforços de obtenção vegetal de longo prazo", afirma. “A proteção de variedades vegetais é o que torna possível esse tipo de inovação”.
Deixando as gramas esportivas sempre mais verdes
Oddershede e Fricker concordam que um gramado bem-sucedido tende a passar despercebido. "Quando não se nota a grama, quer dizer que ela está dando conta do recado", diz Oddershede. Na maioria das vezes, observa, o campo só chama a atenção quando é de baixa qualidade, e ainda assim, o problema está muitas vezes relacionado com a construção ou a manutenção, e não com a variedade em si.
Para Fricker, a visão de longo prazo é também uma visão pessoal. Ela retraça a criação da empresa de pesquisa de sua família, a Pure-Seed Testing, à introdução nos Estados Unidos em 1970 da Lei da Proteção de Variedades Vegetais.
"Ao longo dos últimos 50 anos, investimos milhões de dólares para criar variedades que tivessem um impacto em lugares como Catar, Japão, Europa, na Copa do Mundo, na Copa Ryder e em outros estádios de renome em todo o planeta."
As quase 7.000 variedades protegidas próprias para o uso em gramados, registradas no banco de dados da UPOV, estão presentes em um número considerável de quadras e campos usados para esportes profissionais, desde as linhas de base de Wimbledon até os estádios da Como do Mundo 2026 no Canadá, no México e nos Estados Unidos.
Cada uma delas é o resultado de uma década ou mais de trabalho, realizado no âmbito de um quadro de PI que a maioria dos espectadores nunca verão.
Este artigo foi adaptado a partir de duas entrevistas publicadas pela UPOV em abril de 2026.
Para saber mais sobre a PI no esporte, confira a última edição especial da Revista da OMPI.